Sábado, Dezembro 30, 2006
Pronto, chegámos ao cume do monte de merda que temos estado a montar desde que ensaiámos esta farsa... Saddam foi enforcado. Não foi executado com injecções letais nem com qualquer tipo de cadeira eléctrica. Não, nós, os fundamentalistas católico-protestantes-mais-santos-que-vós, acabámos de mostrar a nossa justiça, a nossa forma de corrigir os nossos erros, a nossa fácil forma de impormos a nossa versão dos acontecimentos. A execução de Saddam não é uma questão de justiça, é uma questão de falta de integridade, um grito de autoritarismo norte-americano e uma forma de levarmos no CÚ de quem nós quisemos colocar de joelhos atrás de nós, prontinhos, de pau na mão.
O nascimento de uma nação faz-se com a morte de um ditador deposto.
Caramba, não dá vontade de criar filhos neste mundo de doidos e hipócritas.
E ao filho-da-puta que me disser que os Estados Unidos estão a defender os seus interesses petrolíferos no Médio Oriente apenas lhe respondo o que todos queriam responder: olho por olho, dente por dente. O Bush deveria ter sido enforcado da mesma forma sorrateira, sucapa, sem qualquer tipo de discussão, assim...
como quem limpa um pedaço de carne do dente canino
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esta é a última vez que escrevo neste blog. O nihildom2004 morreu,
depois destes acontecimentos e desta apatia, falta de conhecimento
e falta de respeito,
o nihildom seguiu o seu destino: "até agora nada de novo"
nada de novo até aqui
nada de novo daqui prá frente
adeus
Quinta-feira, Outubro 19, 2006
(a)cultural
Pois bem, voltamos sempre à vaca fria no que concerne à cultura nos Açores e à imagem que de nós têm e temos. A RTP-Açores, com o dinamismo ofuscante dos seus genéricos e a maravilha da edição dos programas que nos apresenta conseguiu, e conseguirá sempre, mais uma vez, surpreender. É que, numa tentativa de renovar a sua imagem - e é bom que o faça, pensando no facto que passará a fazer parte do pacote de canais nacionais - a RTPA apresenta um genérico sobre a nova programação e a pertinência da mesma na nossa sociedade. E lá voltamos:
"Em Outubro, programa (x) que tratará dos assuntos da actualidade regional, da nossa cultura e sociedade... blah, blah, blah"
e que vemos nós enquanto estas palavras nos enchem os ouvidos de modernidade, actualidade, pertinência, comunicabilidade, e outras coisas maravilhosas????
VEMOS OS CARALHOS DOS ROMEIROS, OUTRA VEZ O MAR, O CÚ DE UMA BALEIA, GOLFINHOS, A LAGOA DAS SETE CIDADES, E TODA A PARAFERNÁLIA AÇORIANA DE UMA CULTURA OBSOLETA E QUE SE QUER SECUNDÁRIA EM PROL DO DESENVOLVIMENTO
irra, que esta merda da bruma e dos xailes negros já chateia
Quarta-feira, Outubro 18, 2006
c. (corte)
Esta noite fria. E de novo a incómoda e recorrente sensação de te sentir a meu lado, respirando tranquilamente o ar que me circunda, ocupando ostensivamente o espaço reservado à minha sombra, usufruindo sem vergonha alguma de um espaço reservado, cuidadoso e encomendado, para alguém que não tu.
ping… ping…)
Enjoada, a cabeça cansada, sinto-me de novo usada como as meias que costumas deixar à entrada do quarto-de-cama. Tento desesperadamente limpar a crosta da vergonha dos joelhos e o muco que se acumula em redor dos meus lábios de todas as vezes que me visitas. E aqui ouço o pingar cadenciado da água
ping… ping…)
na torneira da casa de banho onde não estás a limpar o teu corpo suado. Sinto-me de novo limpa, sozinha e desejada.
Para ti costuma ser fácil o uso corporal, o despejo da raiva acumulada em movimentos frenéticos e repetitivos, do desejo reprimido pelos fatos e pelas gravatas, envoltas em conversas políticas e correctamente insonsas, continuamente vazadas entre copos de uísque e braços cruzados, de olhares intriguistas e jogos de uso-abuso.
É tão fácil para ti o inócuo cumprimento
olá, como passou?)
e os sorrisos trocados entre corredores de hotéis e conferências intragáveis, pintados a traços de conveniência e secretismo enquanto se discutem os factos do universo ou as alterações climáticas da minha cama.
Mas o mais fácil de tudo, para ti, é o ansiado regresso a casa, o rodar da chave na porta,
tantas vezes rodada)
o entrar de novo no ambiente habitual do comodismo, dos acabamentos de luxo, do soalho flutuante e das paredes estanhadas, com quadros caros pendurados nas paredes sobre a mobília encerada e moderna, os tapetes persas, as canetas de pena, o escritório arrumado pela criada,
não eu)
os corredores decorados com móveis e pau-brasil, o quarto-de-cama luxuoso, a mulher deitada sobre o corpo, cansada e adormecida pela espera vã de que a reunião do escritório fosse
ao menos esta vez)
menos demorada, com menos complicações e movimentações político-partidárias, que os assuntos discutidos tivessem um fim à vista de todos, sem grandes refutações nem discussões, selados com apertos de mão e desejos de uma boa viagem de regresso a casa.
Para ti, o mais fácil é o sair.
Eu, não sei se fico. Levanto-me e percorro este corredor pintado a tinta de água, de bordos irregulares e escamados, pisando com os pés descalços o chão de cortiça barata que a tua presença teima em manter, e os móveis comprados no ikea, as juntas coladas com cola de madeira
como toda a cola que usas em mim)
à força de tanto as separar pela raiva de não as conseguir unir.
A cozinha está vazia de tudo, acendo a luz e reparo que tenho de te pedir um candeeiro para este cubículo. A luz seca da lâmpada fere-me os olhos cansados e adormecidos. Levo um copo com água da torneira à boca para aplacar a sede e a sensação que tenho de ter o teu muco nos cantos dos meus lábios.
Para mim é difícil o ficar. O ter que vaguear sozinha
e assustada)
por este apartamento minúsculo, tentando fazer sentido deste fio de ariadne que vou tecendo à medida que avanço, com custo, organizando o labirinto deste meu viver adaptado a uma mera necessidade de sobrevivência e, quiçá, comodismo meu pelo teu hábito de apareceres sempre tarde, sempre cansado, sempre contando com…
Torna-se tão difícil o ficar, o não partir em busca de uma casa com chão flutuante e paredes estanhadas, onde a água é engarrafada
francesa)
e sabe bem quando a bebemos a esta hora da noite, sozinhos e descalços no chão frio de azulejos baratos, comprados quando o dinheiro não dá para esticar.
Torna-se ainda mais difícil a efemeridade. O abraço breve e os preliminares contabilizados aos minutos dispendidos
tenho de ir…)
sem que se levantem suspeitas da ausência prolongada, algures em trabalho-reuniões-convívios-encontros-aborrecimentos de que ninguém quer saber quando são utilizados como desculpas.
E é nestes breves instantes, enquanto ouço o pingar cadenciado da água
ping… ping…)
na torneira da casa de banho, e me encontro sozinha, sentada na cama vazia, feliz por não estares a meu lado, que me apetece desfazer o novelo, perder o fio à meada, perder-me neste labirinto que é o meu constante fazer e refazer de uma existência enferma e efémera, perdida e desconexa de razão que a única razão de existir.
Esta noite fria. E por momentos a alegre sensação de não te sentir a meu lado, de saber que não respiras o meu ar, que não ocupas o lugar a meu lado.
Nunca mais.
ping… ping…)
Enjoada, a cabeça cansada, sinto-me de novo usada como as meias que costumas deixar à entrada do quarto-de-cama. Tento desesperadamente limpar a crosta da vergonha dos joelhos e o muco que se acumula em redor dos meus lábios de todas as vezes que me visitas. E aqui ouço o pingar cadenciado da água
ping… ping…)
na torneira da casa de banho onde não estás a limpar o teu corpo suado. Sinto-me de novo limpa, sozinha e desejada.
Para ti costuma ser fácil o uso corporal, o despejo da raiva acumulada em movimentos frenéticos e repetitivos, do desejo reprimido pelos fatos e pelas gravatas, envoltas em conversas políticas e correctamente insonsas, continuamente vazadas entre copos de uísque e braços cruzados, de olhares intriguistas e jogos de uso-abuso.
É tão fácil para ti o inócuo cumprimento
olá, como passou?)
e os sorrisos trocados entre corredores de hotéis e conferências intragáveis, pintados a traços de conveniência e secretismo enquanto se discutem os factos do universo ou as alterações climáticas da minha cama.
Mas o mais fácil de tudo, para ti, é o ansiado regresso a casa, o rodar da chave na porta,
tantas vezes rodada)
o entrar de novo no ambiente habitual do comodismo, dos acabamentos de luxo, do soalho flutuante e das paredes estanhadas, com quadros caros pendurados nas paredes sobre a mobília encerada e moderna, os tapetes persas, as canetas de pena, o escritório arrumado pela criada,
não eu)
os corredores decorados com móveis e pau-brasil, o quarto-de-cama luxuoso, a mulher deitada sobre o corpo, cansada e adormecida pela espera vã de que a reunião do escritório fosse
ao menos esta vez)
menos demorada, com menos complicações e movimentações político-partidárias, que os assuntos discutidos tivessem um fim à vista de todos, sem grandes refutações nem discussões, selados com apertos de mão e desejos de uma boa viagem de regresso a casa.
Para ti, o mais fácil é o sair.
Eu, não sei se fico. Levanto-me e percorro este corredor pintado a tinta de água, de bordos irregulares e escamados, pisando com os pés descalços o chão de cortiça barata que a tua presença teima em manter, e os móveis comprados no ikea, as juntas coladas com cola de madeira
como toda a cola que usas em mim)
à força de tanto as separar pela raiva de não as conseguir unir.
A cozinha está vazia de tudo, acendo a luz e reparo que tenho de te pedir um candeeiro para este cubículo. A luz seca da lâmpada fere-me os olhos cansados e adormecidos. Levo um copo com água da torneira à boca para aplacar a sede e a sensação que tenho de ter o teu muco nos cantos dos meus lábios.
Para mim é difícil o ficar. O ter que vaguear sozinha
e assustada)
por este apartamento minúsculo, tentando fazer sentido deste fio de ariadne que vou tecendo à medida que avanço, com custo, organizando o labirinto deste meu viver adaptado a uma mera necessidade de sobrevivência e, quiçá, comodismo meu pelo teu hábito de apareceres sempre tarde, sempre cansado, sempre contando com…
Torna-se tão difícil o ficar, o não partir em busca de uma casa com chão flutuante e paredes estanhadas, onde a água é engarrafada
francesa)
e sabe bem quando a bebemos a esta hora da noite, sozinhos e descalços no chão frio de azulejos baratos, comprados quando o dinheiro não dá para esticar.
Torna-se ainda mais difícil a efemeridade. O abraço breve e os preliminares contabilizados aos minutos dispendidos
tenho de ir…)
sem que se levantem suspeitas da ausência prolongada, algures em trabalho-reuniões-convívios-encontros-aborrecimentos de que ninguém quer saber quando são utilizados como desculpas.
E é nestes breves instantes, enquanto ouço o pingar cadenciado da água
ping… ping…)
na torneira da casa de banho, e me encontro sozinha, sentada na cama vazia, feliz por não estares a meu lado, que me apetece desfazer o novelo, perder o fio à meada, perder-me neste labirinto que é o meu constante fazer e refazer de uma existência enferma e efémera, perdida e desconexa de razão que a única razão de existir.
Esta noite fria. E por momentos a alegre sensação de não te sentir a meu lado, de saber que não respiras o meu ar, que não ocupas o lugar a meu lado.
Nunca mais.
Domingo, Outubro 08, 2006
palestra Hotel de Angra
No passado dia 6 de Outubro, fui convidado a dar uma palestra subordinada ao tema Os Jovens, a Identidade Cultural Açoriana e a Importância da sua Valorização numa Perspectiva de Futuro. Aqui está o texto integral dessa comunicação:
Boas tardes,
Em primeiro lugar, quero dar os meus mais sinceros parabéns à organização responsável por este Encontro, que considero ser um grande e importante passo no processo de valorização do património cultural da Macaronésia.
Em segundo lugar, gostaria de agradecer o convite que me foi endereçado para aqui, diante de vós, poder dar o meu modesto contributo para esta discussão, que se afigura de cabal pertinência no nosso contexto europeu e globalizado do século xxi.
Posto isto, permitam-me que vos conte uma pequena história:
Era uma vez um jovem açoriano que, como todos os jovens açorianos da sua altura, cresceu e foi influenciado pelas culturas mundial e europeia que na altura estavam na moda: neste caso, imaginem os anos noventa.
Movimentos musicais como o grunge pós-glam-rock, a morte de Kurt Cobain, e todas as suas manifestações na moda e maneira de estar dos jovens; as contestações raciais do caso Rodney King; o julgamento de OJ Simpson; a ovelha Dolly e a discussão ética da clonagem; a cinematografia europeia do dogme e a internacionalização de nomes como Quentin Tarantino, Guy Ritchie; a primeira Guerra no Iraque, a contestação social europeia, a discussão da moeda única; a libertação de Nelson Mandela, entre outros. Estes são alguns dos pontos fortes de uma década que foi altamente responsável pela moldagem individual, social e cultural deste jovem açoriano.
No entanto, olhando à sua volta, este jovem não conseguia encontrar quaisquer pontos de referência com a sua própria existência insular. Nessa altura, fruto de uma exacerbada regionalização cultural açoriana pós-25-de-abril, tudo o que não estivesse directa ou indirectamente relacionado com: baleias, golfinhos, mar, saudade, bruma, ilha, Vitorino Nemésio, Antero de Quental, ou Zeca Medeiros e Luís Bettencourt, a insularidade, a imigração, os xailes negros, a rtp-açores, as almas cativas, o folclore, as festas religiosas, a história, o heroísmo passado, não era considerado cultura.
Havia uma espécie de carimbo invisível, embora muito presente, que catalogava a cultura e a identidade açoriana com um conjunto de palavras-chave predefinidas e que, obviamente, excluía o restante produto cultural que na altura era produzido na região. Era um molde estático e confortável de consenso, onde a cultura açoriana estava definida, baseado numa existência que, já na altura, não correspondia inteiramente às aspirações e realidades da juventude açoriana.
Como podemos facilmente deduzir, este jovem açoriano, assim como todos os seus colegas, sentiam-se deslocados, não integrados daquela cultura insular, manifestando então a sua angústia e frustração em produtos culturais que eram completamente desadequadas daquela “catalogação” cultural que eles conheciam. E quanto mais se manifestavam, mais afastados se sentiam, sendo considerados como dissidentes ou não-pertencentes à cultura definida.
Felizmente, hoje em dia, a situação da cultura açoriana já não é tão linear como o que acabei de descrever. A verdade é que, quer se goste quer não se goste, as fronteiras estão abertas. Já o estavam antes, é certo, mas o fluxo de movimentação é muito maior, e também o são as suas implicações culturais na identidade cultural açoriana.
Deixou de haver um molde identificativo como na altura dos anos noventa. Embora ainda subsistam tentativas de o revalorizar, a verdade é que o molde estalou graças à Internet, ao correio-electrónico, à rapidez da troca de informação, o acesso a apoios europeus, ao mundo globalizado e globalizante em que vivemos.
O que importa aqui reter, para além do facto de que as mentalidades relativas à identidade cultural açoriana evoluíram sobremaneira (embora não totalmente), é que na altura esse rapaz não foi capaz de compreender que todas as manifestações culturais que ele recebia do exterior tinham um passado muito definido e altamente documentado.
Faltou-lhe, na altura, a capacidade de análise de que agora disponho, para compreender que o presente em que nos encontramos não se fez do ar, do nada.
Não.
Há um passado (que pode não se reflectir no nosso presente), e esse passado tem história, tradições, culturas, literaturas, estéticas, e todo um conjunto de manifestações culturais que foram evoluindo ao longo do tempo. E a identidade cultural açoriana não foge à regra.
No entanto, importa deixar bem claro que a identidade cultural açoriana não se resume ao passado, como alguns, talvez tementes da mudança, querem fazer crer. A identidade de um povo, ou região neste caso, vai muito para além da catalogação de momentos passados, como uma colecção visual ou auditiva de sombras que já se foram e tradições que já desapareceram. Porque as tradições também desaparecem… E isso não é necessariamente algo de errado.
Mas a nossa identidade cultural é e depende da nossa capacidade (como os movimentos referidos dos anos noventa tiveram) de recuperarmos o passado, de o valorizarmos (seja através da nossa contestação ou reinvenção) e de o projectarmos como fruto de um presente histórico e consciente.
Estes três pilares: recuperar, valorizar e projectar são interdisciplinares e estão de tal forma interligados que esta simples divisão em pilares vai contra a sua natureza. A verdade é que os jovens, vocês, eu, nós, somos agentes únicos e colectivos de uma unidade orgânica. Esta unidade orgânica extravasa o mero conceito de recuperação do património cultural. Que, digamos em verdade, é o que a opinião pública e os nossos políticos têm em mente quando ouvem falar em recuperação patrimonial como se fosse um único pilar daqueles anteriores.
Para eles, a valorização do património e a sua recuperação é um processo bibliotecário e arquivista, que consiste em registar, se possível com as novas tecnologias, e catalogar tradições, vestimentas, usos e costumes passados, numa atitude de ohhhh, como as coisas eram diferentes antigamente. E nada mais.
Mas a verdade é que a valorização do passado faz parte integrante do nosso presente. Vivemos num presente globalizado, cibernético, pós-11-de-setembro, de choques religiosos diários, onde a cultura individual dos povos desempenha um papel fulcral na definição do nosso mundo ocidental.
Aqui reside a importância dos jovens e de toda a comunidade que age localmente na preservação do património.
Não concordo que a valorização passe pela mera digitalização, recuperação e arquivo de tudo o que pertence ao passado como elementos numa prateleira. Não. Considero antes que é necessário existir uma simbiose entre o passado (como raiz estruturante de um ser humano) e o seu presente (onde esse ser humano se movimenta e onde terá que se definir como ser actuante), deixando sempre lugar para que o resultado desta simbiose se torne a raiz de um futuro que, poderá ou não, pertencer-lhe. Mas será sempre o seu legado.
São necessárias iniciativas empreendedoras de intercâmbio e intercomunicação cultural entre as diversas regiões, como é o caso da Macaronésia. Há alguns meses atrás houve um conjunto de actividades (workshops de fotografia, exposições colectivas, entre outros) entre jovens da Macaronésia. O feedback que recebi de quem neles participou foi extremamente positivo.
São necessárias plataformas de entendimento cultural e é impreterível que a valorização da identidade (açoriana ou outra) deixe de ser conotada com a mera recolha do passado e passe a ser entendida como a integração e transmutação do passado no presente, em prol da construção de um futuro global mas que consiga preservar as especificidades das regiões e dos indivíduos que o comporão. Tal como cada homem é um homem e em conjunto faz uma multidão, também cada região é uma região e em conjunto fazem o mundo.
Bem hajam!
Em primeiro lugar, quero dar os meus mais sinceros parabéns à organização responsável por este Encontro, que considero ser um grande e importante passo no processo de valorização do património cultural da Macaronésia.
Em segundo lugar, gostaria de agradecer o convite que me foi endereçado para aqui, diante de vós, poder dar o meu modesto contributo para esta discussão, que se afigura de cabal pertinência no nosso contexto europeu e globalizado do século xxi.
Posto isto, permitam-me que vos conte uma pequena história:
Era uma vez um jovem açoriano que, como todos os jovens açorianos da sua altura, cresceu e foi influenciado pelas culturas mundial e europeia que na altura estavam na moda: neste caso, imaginem os anos noventa.
Movimentos musicais como o grunge pós-glam-rock, a morte de Kurt Cobain, e todas as suas manifestações na moda e maneira de estar dos jovens; as contestações raciais do caso Rodney King; o julgamento de OJ Simpson; a ovelha Dolly e a discussão ética da clonagem; a cinematografia europeia do dogme e a internacionalização de nomes como Quentin Tarantino, Guy Ritchie; a primeira Guerra no Iraque, a contestação social europeia, a discussão da moeda única; a libertação de Nelson Mandela, entre outros. Estes são alguns dos pontos fortes de uma década que foi altamente responsável pela moldagem individual, social e cultural deste jovem açoriano.
No entanto, olhando à sua volta, este jovem não conseguia encontrar quaisquer pontos de referência com a sua própria existência insular. Nessa altura, fruto de uma exacerbada regionalização cultural açoriana pós-25-de-abril, tudo o que não estivesse directa ou indirectamente relacionado com: baleias, golfinhos, mar, saudade, bruma, ilha, Vitorino Nemésio, Antero de Quental, ou Zeca Medeiros e Luís Bettencourt, a insularidade, a imigração, os xailes negros, a rtp-açores, as almas cativas, o folclore, as festas religiosas, a história, o heroísmo passado, não era considerado cultura.
Havia uma espécie de carimbo invisível, embora muito presente, que catalogava a cultura e a identidade açoriana com um conjunto de palavras-chave predefinidas e que, obviamente, excluía o restante produto cultural que na altura era produzido na região. Era um molde estático e confortável de consenso, onde a cultura açoriana estava definida, baseado numa existência que, já na altura, não correspondia inteiramente às aspirações e realidades da juventude açoriana.
Como podemos facilmente deduzir, este jovem açoriano, assim como todos os seus colegas, sentiam-se deslocados, não integrados daquela cultura insular, manifestando então a sua angústia e frustração em produtos culturais que eram completamente desadequadas daquela “catalogação” cultural que eles conheciam. E quanto mais se manifestavam, mais afastados se sentiam, sendo considerados como dissidentes ou não-pertencentes à cultura definida.
Felizmente, hoje em dia, a situação da cultura açoriana já não é tão linear como o que acabei de descrever. A verdade é que, quer se goste quer não se goste, as fronteiras estão abertas. Já o estavam antes, é certo, mas o fluxo de movimentação é muito maior, e também o são as suas implicações culturais na identidade cultural açoriana.
Deixou de haver um molde identificativo como na altura dos anos noventa. Embora ainda subsistam tentativas de o revalorizar, a verdade é que o molde estalou graças à Internet, ao correio-electrónico, à rapidez da troca de informação, o acesso a apoios europeus, ao mundo globalizado e globalizante em que vivemos.
O que importa aqui reter, para além do facto de que as mentalidades relativas à identidade cultural açoriana evoluíram sobremaneira (embora não totalmente), é que na altura esse rapaz não foi capaz de compreender que todas as manifestações culturais que ele recebia do exterior tinham um passado muito definido e altamente documentado.
Faltou-lhe, na altura, a capacidade de análise de que agora disponho, para compreender que o presente em que nos encontramos não se fez do ar, do nada.
Não.
Há um passado (que pode não se reflectir no nosso presente), e esse passado tem história, tradições, culturas, literaturas, estéticas, e todo um conjunto de manifestações culturais que foram evoluindo ao longo do tempo. E a identidade cultural açoriana não foge à regra.
No entanto, importa deixar bem claro que a identidade cultural açoriana não se resume ao passado, como alguns, talvez tementes da mudança, querem fazer crer. A identidade de um povo, ou região neste caso, vai muito para além da catalogação de momentos passados, como uma colecção visual ou auditiva de sombras que já se foram e tradições que já desapareceram. Porque as tradições também desaparecem… E isso não é necessariamente algo de errado.
Mas a nossa identidade cultural é e depende da nossa capacidade (como os movimentos referidos dos anos noventa tiveram) de recuperarmos o passado, de o valorizarmos (seja através da nossa contestação ou reinvenção) e de o projectarmos como fruto de um presente histórico e consciente.
Estes três pilares: recuperar, valorizar e projectar são interdisciplinares e estão de tal forma interligados que esta simples divisão em pilares vai contra a sua natureza. A verdade é que os jovens, vocês, eu, nós, somos agentes únicos e colectivos de uma unidade orgânica. Esta unidade orgânica extravasa o mero conceito de recuperação do património cultural. Que, digamos em verdade, é o que a opinião pública e os nossos políticos têm em mente quando ouvem falar em recuperação patrimonial como se fosse um único pilar daqueles anteriores.
Para eles, a valorização do património e a sua recuperação é um processo bibliotecário e arquivista, que consiste em registar, se possível com as novas tecnologias, e catalogar tradições, vestimentas, usos e costumes passados, numa atitude de ohhhh, como as coisas eram diferentes antigamente. E nada mais.
Mas a verdade é que a valorização do passado faz parte integrante do nosso presente. Vivemos num presente globalizado, cibernético, pós-11-de-setembro, de choques religiosos diários, onde a cultura individual dos povos desempenha um papel fulcral na definição do nosso mundo ocidental.
Aqui reside a importância dos jovens e de toda a comunidade que age localmente na preservação do património.
Não concordo que a valorização passe pela mera digitalização, recuperação e arquivo de tudo o que pertence ao passado como elementos numa prateleira. Não. Considero antes que é necessário existir uma simbiose entre o passado (como raiz estruturante de um ser humano) e o seu presente (onde esse ser humano se movimenta e onde terá que se definir como ser actuante), deixando sempre lugar para que o resultado desta simbiose se torne a raiz de um futuro que, poderá ou não, pertencer-lhe. Mas será sempre o seu legado.
São necessárias iniciativas empreendedoras de intercâmbio e intercomunicação cultural entre as diversas regiões, como é o caso da Macaronésia. Há alguns meses atrás houve um conjunto de actividades (workshops de fotografia, exposições colectivas, entre outros) entre jovens da Macaronésia. O feedback que recebi de quem neles participou foi extremamente positivo.
São necessárias plataformas de entendimento cultural e é impreterível que a valorização da identidade (açoriana ou outra) deixe de ser conotada com a mera recolha do passado e passe a ser entendida como a integração e transmutação do passado no presente, em prol da construção de um futuro global mas que consiga preservar as especificidades das regiões e dos indivíduos que o comporão. Tal como cada homem é um homem e em conjunto faz uma multidão, também cada região é uma região e em conjunto fazem o mundo.
Bem hajam!
Sábado, Setembro 30, 2006
verdadeiros metaleiros
O verdadeiro metaleiro quando nasce não faz a mais pálida ideia de que é um metaleiro. Começa por ser um rapaz igual aos outros: até aos seis anos não é autónomo, faz chichi nas cuecas, tem medo do escuro, não gosta de estar sozinho, briga com as raparigas e adora andar perto dos rapazes para poder brincar aos polícias e aos ladrões, aos cowboys e aos índios, por vezes até aos médicos e às enfermeiras.
Durante a escola primária, o metaleiro é um rapaz normal, parecido com os restantes rapazes da escola. No entanto, algo o distingue. Ora a forma de falar, ora a maneira de andar, os jeitos afeminados, o interesse pela música ou por outras formas de estar na vida que não as normalmente aceites pelos restantes rapazes. Ou então é marrão. Um grande marrãozinho que adora estudar e fazer os papás felizes porque o filho é muito muito esperto, embora não sociável, é muito inteligente e tira boas notas na escola primária, no 2º ciclo e, por vezes, até ao final do 3º ciclo.
No entanto, o despertar para a “metalicisse” ocorre por volta do oitavo ano de escolaridade. Quando os restantes alunos estão a passar de pintainho para galo, o metaleiro está ainda a pensar se aquilo que tem pendurado entre as pernas serve para fazer desenhos na areia ou para quê? A partir do oitavo ano, normalmente, as coisas começam a ficar feias para o típico metaleiro.
Em primeiro lugar, não consegue arranjar namorada. Começa então a perceber que algo de errado nele. Há algo – o acne, a roupa que os pais lhe vestem, a maneira como ele fala com as outras raparigas, o andar, qualquer coisa – que o impede de iniciar ou tentar iniciar uma vida de namoro ou sexo profícua ou, pelo menos, minimamente activa.
Em segundo lugar, os amigos, pelas mais diversas razões que ele não consegue identificar, de alguma maneira sobrenatural, conseguem arranjar sempre alguma rapariga com quem passar o tempo. E relegam-no para segundo plano. Ele tenta perceber o que se passa, mas há algo que o impede de ver a realidade e perceber aquilo que lhe falta para poder singrar no universo melindroso dos arranjos amorosos.
E a vida dele segue como dantes – sozinho, com boas notas, mas sem grandes amigos nem namorada que se vislumbre. É então que algo o atinge. Pode ser das mais variadas formas, mas o resultado é sempre o mesmo, e a conclusão a que o metaleiro chega é também a mesma: há gajos que ouvem música esquisita mas que, por obra ora da roupa preta que usam, ora pelo paleio, ou pelas letras agressivas das canções, conseguem sempre… mas sempre sempre sempre… arranjar uma namorada. Mas não são umas namoradas quaisquer… são namoradas podres de boas e que não têm vontade de serem “namoradas para casar”, apenas para curtir.
Normalmente as namoradas dos gajos que ouvem músicas esquisitas e violentas, obscuras, de que ninguém nunca ouviu falar, são as gajas mais jeitosas do liceu. Ou então, se não o são, tornar-se-ão em brevíssimos períodos lectivos. Habitualmente do final do terceiro período do oitavo ano para o primeiro período do nono.
E é aqui que a vida do metaleiro verdadeiramente muda: começa a procurar músicas dos “heavy metal” ou da banda chamada “death metal” e tudo o que tenha que ver com o desconhecido, o violento, a repulsa da normalidade, do hábito. Começam a deixar crescer o cabelo (normalmente), ou ganham a coragem suficiente para fazerem um piercing muito marado e muito à frente dos outros. Passam a vestir de preto, inteiramente de preto, e, mais recentemente, passam a sacar todo o tipo de música pesada que conseguem sacar da net.
E as raparigas começam a surgir. Os anos vão passando, e a sua reputação de gajos duros, entendidos na música pesada, de preto, com piercings, cabelos grandes e tatuagens, vai finalmente crescendo. Começam a lamentar-se imenso do mundo, da sociedade, das pessoas, que ninguém os compreende, que são anjos caídos de um outro paraíso, que a dor faz parte da sua vida, que gostariam de beber sangue humano, que fizeram pactos de sangue com alguém, que leram o livro de são sipriano, muitas vezes sem saberem quem foi Anton La Vey, que os pais não os compreendem, os professores não os compreendem, ninguém os compreende… nem as namoradas, que tentam desesperadamente fazer qualquer coisa por aquela alma atormentada e desnorteada.
Mais tarde, a vida continua, e eles vão-se mantendo no mesmo sítio, fazendo as mesmas coisas, bebendo nos mesmos cafés, com a mesma cara carrancuda, com as mesmas roupas escuras, com a mesma atitude anti-social com que começaram. Embora sintam bem lá no fundo que a sua vida não está a ir a lado nenhum, continuam a lamentar-se. Mas, normalmente, o verdadeiro metaleiro quando chega a esta altura, tornou-se um verdadeiro entendido na matéria de metalicisse e de música metal. Já não é qualquer coisa que o satisfaz, não é qualquer música, não é qualquer banda, não é o que toda a gente ouve. Habitualmente, o metaleiro quando chega a este estádio, refugia-se, embora paradoxalmente, no exacto sítio de onde tentou sair em primeiro lugar: a solidão.
Nesta altura, o metaleiro não faz parte de uma qualquer banda de garagem que aspira tornar-se uma grande banda de metal. Não, o metaleiro já evoluiu muito, já não vai para a frente do público, no moshpit, abanar a cabeça e fazer sinais ridículos de cornos (mesmo que não os tenha) às bandas que desfilam no palco. Não, nesta altura o metaleiro assiste aos concertos junto à cabine de som, vestido sempre de preto, com os braços cruzados, em atitude contemplativa, acenando de vez em quando a cabeça a um ou outro acorde original mas, no cômputo geral, mostra-se insatisfeito, entediado, farto do idêntico em toda a parte.
Tudo é a mesma merda: as bandas são uma merda, a sociedade é uma merda, as pessoas são falsas e hipócritas, o mundo está perverso, deus não existe, nada existe a não ser o metaleiro e a sua metalicisse. Nada mais está para provar o que quer que seja. A ideia de deus é negada à mais extrema consequência: risos em funerais, desaprovações de choros, alegadas tentativas de suicídio que nunca chegam a lado nenhum (pena), namoros acabados, recomeçados, acabados e finalmente recomeçados – mas com raparigas dez anos mais novas do que ele. Também elas fascinadas, como ele, com a pose negativista, a atitude de desprezo, de arrogância, de conhecimento, de anti-tudo-o-que-não-é-metal.
Passam a detestar a norma musical dentro dos metaleiros. Quem ouve músicas de bandas conhecidas é automaticamente banido do círculo pseudo-intelectual em que o metaleiro está inserido ou, nas restantes hipóteses, criou para se inserir a si próprio. Só as músicas que eles ouvem – eles, e uma pequeníssima minoria – são dignas de se ouvir. Só se alguém conhecer aquela segunda versão do lado b de um single que nunca foi editado em lado algum, e que só uma centena de pessoas e ele é que conhecem, é que poderá, talvez, e aqui residem muitas reticências, só assim, talvez é que esse alguém poderá aspirar a fazer parte desse círculo restritíssimo.
A vida entretanto passa. A música muda, os tempos mudam, as pessoas mudam, as raparigas facilmente impressionáveis tornam-se objectos proibidos para os não-pedófilos, e tudo chega ao mesmo: a vida é nada, nada é nada, deus é nada. Tudo é um grande, negro e vazio NADA.
Então, normalmente, o metaleiro, nos últimos momentos da sua fúnebre e entediante vida, chega a uma conclusão. Não interessa qual. Mas consegue percebê-la. E então, num último acto de desespero, de refúgio mental e religioso, o metaleiro tenta encontrar algum conforto na figura que sempre desprezou, como o filho pródigo voltando a casa: olha para o céu negro da noite tentando encontrar uma resposta, um qualquer tipo de justificação, de entendimento. Mas apenas consegue descortinar o negro da roupa que usou sempre ao longo da sua vida.
Durante a escola primária, o metaleiro é um rapaz normal, parecido com os restantes rapazes da escola. No entanto, algo o distingue. Ora a forma de falar, ora a maneira de andar, os jeitos afeminados, o interesse pela música ou por outras formas de estar na vida que não as normalmente aceites pelos restantes rapazes. Ou então é marrão. Um grande marrãozinho que adora estudar e fazer os papás felizes porque o filho é muito muito esperto, embora não sociável, é muito inteligente e tira boas notas na escola primária, no 2º ciclo e, por vezes, até ao final do 3º ciclo.
No entanto, o despertar para a “metalicisse” ocorre por volta do oitavo ano de escolaridade. Quando os restantes alunos estão a passar de pintainho para galo, o metaleiro está ainda a pensar se aquilo que tem pendurado entre as pernas serve para fazer desenhos na areia ou para quê? A partir do oitavo ano, normalmente, as coisas começam a ficar feias para o típico metaleiro.
Em primeiro lugar, não consegue arranjar namorada. Começa então a perceber que algo de errado nele. Há algo – o acne, a roupa que os pais lhe vestem, a maneira como ele fala com as outras raparigas, o andar, qualquer coisa – que o impede de iniciar ou tentar iniciar uma vida de namoro ou sexo profícua ou, pelo menos, minimamente activa.
Em segundo lugar, os amigos, pelas mais diversas razões que ele não consegue identificar, de alguma maneira sobrenatural, conseguem arranjar sempre alguma rapariga com quem passar o tempo. E relegam-no para segundo plano. Ele tenta perceber o que se passa, mas há algo que o impede de ver a realidade e perceber aquilo que lhe falta para poder singrar no universo melindroso dos arranjos amorosos.
E a vida dele segue como dantes – sozinho, com boas notas, mas sem grandes amigos nem namorada que se vislumbre. É então que algo o atinge. Pode ser das mais variadas formas, mas o resultado é sempre o mesmo, e a conclusão a que o metaleiro chega é também a mesma: há gajos que ouvem música esquisita mas que, por obra ora da roupa preta que usam, ora pelo paleio, ou pelas letras agressivas das canções, conseguem sempre… mas sempre sempre sempre… arranjar uma namorada. Mas não são umas namoradas quaisquer… são namoradas podres de boas e que não têm vontade de serem “namoradas para casar”, apenas para curtir.
Normalmente as namoradas dos gajos que ouvem músicas esquisitas e violentas, obscuras, de que ninguém nunca ouviu falar, são as gajas mais jeitosas do liceu. Ou então, se não o são, tornar-se-ão em brevíssimos períodos lectivos. Habitualmente do final do terceiro período do oitavo ano para o primeiro período do nono.
E é aqui que a vida do metaleiro verdadeiramente muda: começa a procurar músicas dos “heavy metal” ou da banda chamada “death metal” e tudo o que tenha que ver com o desconhecido, o violento, a repulsa da normalidade, do hábito. Começam a deixar crescer o cabelo (normalmente), ou ganham a coragem suficiente para fazerem um piercing muito marado e muito à frente dos outros. Passam a vestir de preto, inteiramente de preto, e, mais recentemente, passam a sacar todo o tipo de música pesada que conseguem sacar da net.
E as raparigas começam a surgir. Os anos vão passando, e a sua reputação de gajos duros, entendidos na música pesada, de preto, com piercings, cabelos grandes e tatuagens, vai finalmente crescendo. Começam a lamentar-se imenso do mundo, da sociedade, das pessoas, que ninguém os compreende, que são anjos caídos de um outro paraíso, que a dor faz parte da sua vida, que gostariam de beber sangue humano, que fizeram pactos de sangue com alguém, que leram o livro de são sipriano, muitas vezes sem saberem quem foi Anton La Vey, que os pais não os compreendem, os professores não os compreendem, ninguém os compreende… nem as namoradas, que tentam desesperadamente fazer qualquer coisa por aquela alma atormentada e desnorteada.
Mais tarde, a vida continua, e eles vão-se mantendo no mesmo sítio, fazendo as mesmas coisas, bebendo nos mesmos cafés, com a mesma cara carrancuda, com as mesmas roupas escuras, com a mesma atitude anti-social com que começaram. Embora sintam bem lá no fundo que a sua vida não está a ir a lado nenhum, continuam a lamentar-se. Mas, normalmente, o verdadeiro metaleiro quando chega a esta altura, tornou-se um verdadeiro entendido na matéria de metalicisse e de música metal. Já não é qualquer coisa que o satisfaz, não é qualquer música, não é qualquer banda, não é o que toda a gente ouve. Habitualmente, o metaleiro quando chega a este estádio, refugia-se, embora paradoxalmente, no exacto sítio de onde tentou sair em primeiro lugar: a solidão.
Nesta altura, o metaleiro não faz parte de uma qualquer banda de garagem que aspira tornar-se uma grande banda de metal. Não, o metaleiro já evoluiu muito, já não vai para a frente do público, no moshpit, abanar a cabeça e fazer sinais ridículos de cornos (mesmo que não os tenha) às bandas que desfilam no palco. Não, nesta altura o metaleiro assiste aos concertos junto à cabine de som, vestido sempre de preto, com os braços cruzados, em atitude contemplativa, acenando de vez em quando a cabeça a um ou outro acorde original mas, no cômputo geral, mostra-se insatisfeito, entediado, farto do idêntico em toda a parte.
Tudo é a mesma merda: as bandas são uma merda, a sociedade é uma merda, as pessoas são falsas e hipócritas, o mundo está perverso, deus não existe, nada existe a não ser o metaleiro e a sua metalicisse. Nada mais está para provar o que quer que seja. A ideia de deus é negada à mais extrema consequência: risos em funerais, desaprovações de choros, alegadas tentativas de suicídio que nunca chegam a lado nenhum (pena), namoros acabados, recomeçados, acabados e finalmente recomeçados – mas com raparigas dez anos mais novas do que ele. Também elas fascinadas, como ele, com a pose negativista, a atitude de desprezo, de arrogância, de conhecimento, de anti-tudo-o-que-não-é-metal.
Passam a detestar a norma musical dentro dos metaleiros. Quem ouve músicas de bandas conhecidas é automaticamente banido do círculo pseudo-intelectual em que o metaleiro está inserido ou, nas restantes hipóteses, criou para se inserir a si próprio. Só as músicas que eles ouvem – eles, e uma pequeníssima minoria – são dignas de se ouvir. Só se alguém conhecer aquela segunda versão do lado b de um single que nunca foi editado em lado algum, e que só uma centena de pessoas e ele é que conhecem, é que poderá, talvez, e aqui residem muitas reticências, só assim, talvez é que esse alguém poderá aspirar a fazer parte desse círculo restritíssimo.
A vida entretanto passa. A música muda, os tempos mudam, as pessoas mudam, as raparigas facilmente impressionáveis tornam-se objectos proibidos para os não-pedófilos, e tudo chega ao mesmo: a vida é nada, nada é nada, deus é nada. Tudo é um grande, negro e vazio NADA.
Então, normalmente, o metaleiro, nos últimos momentos da sua fúnebre e entediante vida, chega a uma conclusão. Não interessa qual. Mas consegue percebê-la. E então, num último acto de desespero, de refúgio mental e religioso, o metaleiro tenta encontrar algum conforto na figura que sempre desprezou, como o filho pródigo voltando a casa: olha para o céu negro da noite tentando encontrar uma resposta, um qualquer tipo de justificação, de entendimento. Mas apenas consegue descortinar o negro da roupa que usou sempre ao longo da sua vida.
E morre amargurado, sem perceber porque é que nunca evoluiu.
Quarta-feira, Setembro 20, 2006
qual gordon? rtp-açores

Afinal, preparámo-nos para o pior, antecipando rajadas que poderiam chegar aos 170km/h nas previsões mais optimistas, e o furacão decidiu mudar um pouco a sua trajectória e perder intensidade. Santa Maria registou rajadas de 115... hum, pouco, se tivermos em conta o que esperávamos.
De qualquer das formas, a passagem do furacão Gordon ajudou a clarificar uma imagem difusa que tínhamos da delegação da RTP na ilha Terceira.
Para além de, tendencialmente, a RTP-Açores ser a pior televisão do país e apresentar dos piores programas e apresentadores (vou-me abster dos jornalistas) que se possam imaginar, a RTP-Açores de Angra NÃO MEXE UMA FILHA DA PUTA DE UMA PALHA PARA IR A LADO ALGUM.
A reportagem sobre o furacão foi feito no pátio da própria delegação. O sr. Luciano Barcelos nem se dignou a sair de onde estava. E claro, quando o colega do continente lhe pede uma paronâmica do local para as pessoas sentirem o que se estava a passar, o que é que vemos??? O telhado do Terceira Mar e uma ponta do Monte Brasil. Caramba, raios partam a inércia.
Pior: durante a noite a RTP-Açores (de novo) teve a brilhante ideia de deixar a emisssão no ar, com câmaras posicionadas em sítios estratégicos que nos dessem uma visão da passagem do furacão por Horta, Angra e Ponta Delgada.
Na câmara da Horta viam-se o porto e alguns barcos de pesca. O mar, portanto.
Na câmara de Ponta Delgada via-se uma grande extensão da avenida. O mar, portanto.
Na câmara de Angra via-se uma rotunda e algunas casas (incluindo a Secretaria Regional da Habitação). Mais nada. Portanto, nada de mar.
É de mim ou estes sacanas não querem mesmo fazer nada????
Sábado, Setembro 09, 2006
parolímpicos
Ganhámos pela primeira vez uma medalha de ouro em jogos olímpicos para deficientes. A mim, pessoalmente, o que me entristesse deveras é que todos os países representados nesta competição internacional pudessem ter cores das suas bandeiras representadas através dos seus equipamentos. A identificação da nação é um complemento à exposição e internacionalização de que os países participantes gozam no âmbito da comunidade internacional. Portugal, por seu turno, e como já vem sido hábito da sua incapacidade de visão estratégica naquelas vertentes cujo retorno imediato não é imediato, deixou que os seus atletas partissem para a competição vestidos de amarelo. Pronto, a negligência e falta de sensibilidade de alguns governantes -- neste caso na área do desporto -- voltaram a fazer das suas. E os atletas é que são bonzinhos, como o Obikwelo e outros, que continuam a treinar em condições precárias e a dar tudo por tudo para levar o nome do seu país mais longe.
O país é que não quer sair da merda ignorante onde se encontra atulhado.
nihildom
Quinta-feira, Setembro 07, 2006
b. (busca)
Sempre que fecho os olhos, tentando apagar da minha íris a crueza destas paredes brancas que me circundam, faço um esforço por te imaginar de novo sentado ao meu lado, naquela velha paragem de autocarro, repleta de desenhos obscenos de corpos e genitais toscos e deformados, onde tantas vezes nos sentámos esperando por nada... por ninguém. Aguardávamos apenas aquela espécie de consolo
efémero)
de nos sabermos acompanhados na nossa fútil espera, de sabermos que não estávamos sós. Nenhum de nós. E aguardávamos calmamente o passar das horas, com o passar do vento, levantando do chão a cinza dos cigarros que acendíamos,
um atrás do outro)
enquanto pensávamos em como seria o mundo quando nos dispuséssemos a viver nele, a agir-lhe no funcionamento segundo as nossas próprias leis intrínsecas, assimilando ou não todas as suas complexas interacções.
Aí, conjecturávamos silenciosamente sobre como as coisas seriam fáceis, altamente indefinidas, contudo
como todas as adversativas)
correctas e certas nos espaços que lhes eram destinados à partida desde a sua inicial existência e programação funcional.
Naquela altura, na altura da paragem do autocarro, quando tu colocavas a medo a tua mão forte sobre as minhas saias, as estrelas pairavam sobre as nossas cabeças numa cadência de emissão televisiva
dos concursos e telejornais)
onde nos víamos projectados e estranhamente familiarizados com a popularidade de que gozávamos naquele nosso pequeno mundo inventado e altamente fantasiado.
E daí puxávamos mais um cigarro. Cuspíamos no chão oleoso, esfregando com os pés o cuspo do cigarro anterior, e ficávamos assim sentados durante muito tempo, imóveis, olhando sem esperança as nossas projecções televisivas que, no futuro, talvez tentassem chegar a algum lado. Também nós esperávamos talvez a chegada de um qualquer autocarro, de destino incerto e condutor de chapéu azul, para que nos levasse para longe, para muito longe. Para onde as estrelas eram simplesmente estrelas, e o chão não se vestisse de cimento.
Sonhávamos,
pass me a cigarette; I think there’s one in my raincoat)
com a melodia das canções que nos enchiam os ouvidos de sonhos, enquanto o autocarro descia a quarta ou quinta avenida, já não me consigo recordar ao certo qual seria, para nos deixar finalmente na estação da baixa de Nova Iorque.
Seguíamos, sempre de cigarro na boca, pelas ruas da cidade iluminada, sonhando com anjos pedintes e com fortuna fácil.
Beijávamos celebridades e encontrávamos velhos amigos
ricos e lindos)
no Plaza e no Ritz. Dançávamos ao som dos mais recentes djs, bebericando caros cocktails e sorrindo a sorrisos (des)conhecidos. Tagarelávamos sobre as mais recentes fofocas e os mais importantes acordos e contratos de trabalhos televisivos e muito bem pagos. Éramos tão
beautiful people)
aquilo que nunca verdadeiramente fomos. Éramos únicos, imprescindíveis, e certos de que o mundo esperava por nós tal como nós o aguardávamos – de cigarro na boca e sorriso de criança.
Quando fecho os olhos, agora, sentada nesta cadeira de rodas e rodeada por estas cruas paredes brancas, já não te consigo imaginar sentado ao meu lado, cuspindo sobre o meu cuspo no chão oleoso, vendo as cinzas dos cigarros levantarem e partirem ao sabor do vento, cantarolando lânguidas canções poéticas,
we smoked the last one an hour ago…)
enquanto colocavas a medo a tua mão grossa sobre as minhas saias, sentindo o calor das minhas pernas e o palpitar da indecisão.
Agora, sempre que acendo um cigarro
à sucapa das enfermeiras)
entre as salas de quimioterapia, com o cuidado de lançar o fumo para o frio da noite e não ser apanhada pelo cheiro a tabaco, já não me consigo imaginar sentada ao teu lado Não me consigo imaginar em nenhuma paragem de autocarro, ansiando a chegada de alguém que me leve para muito longe.
Não quero ir para muito longe, já não quero.
Agora, vestindo esta bata branca que deixa entrar o frio pelas costuras ao longo do meu corpo macerado
velho)
e flácido pelos anos de espera sentada, agora, o tempo não é de busca nem de espera. É um tempo de estar. De simplesmente estar, aqui, sentada nesta cadeira de rodas como outrora na paragem a teu lado, cuspindo para o chão o catarro das sessões, e aguardando calma e pacientemente que chegue a hora de me levantar, cansada que estou de esperar, para finalmente sair deste quarto branco e frio, de bata branca no braço e
não de cadeira de rodas)
com um certo brilho indefinido de esperança de te voltar a ver, de voltar a sentir o teu cuspo em cima do meu, de te saber ao meu lado, como sempre estiveste, afagando-me calmamente o coração sempre que pousavas a tua mão grossa em cima das minhas saias.
efémero)
de nos sabermos acompanhados na nossa fútil espera, de sabermos que não estávamos sós. Nenhum de nós. E aguardávamos calmamente o passar das horas, com o passar do vento, levantando do chão a cinza dos cigarros que acendíamos,
um atrás do outro)
enquanto pensávamos em como seria o mundo quando nos dispuséssemos a viver nele, a agir-lhe no funcionamento segundo as nossas próprias leis intrínsecas, assimilando ou não todas as suas complexas interacções.
Aí, conjecturávamos silenciosamente sobre como as coisas seriam fáceis, altamente indefinidas, contudo
como todas as adversativas)
correctas e certas nos espaços que lhes eram destinados à partida desde a sua inicial existência e programação funcional.
Naquela altura, na altura da paragem do autocarro, quando tu colocavas a medo a tua mão forte sobre as minhas saias, as estrelas pairavam sobre as nossas cabeças numa cadência de emissão televisiva
dos concursos e telejornais)
onde nos víamos projectados e estranhamente familiarizados com a popularidade de que gozávamos naquele nosso pequeno mundo inventado e altamente fantasiado.
E daí puxávamos mais um cigarro. Cuspíamos no chão oleoso, esfregando com os pés o cuspo do cigarro anterior, e ficávamos assim sentados durante muito tempo, imóveis, olhando sem esperança as nossas projecções televisivas que, no futuro, talvez tentassem chegar a algum lado. Também nós esperávamos talvez a chegada de um qualquer autocarro, de destino incerto e condutor de chapéu azul, para que nos levasse para longe, para muito longe. Para onde as estrelas eram simplesmente estrelas, e o chão não se vestisse de cimento.
Sonhávamos,
pass me a cigarette; I think there’s one in my raincoat)
com a melodia das canções que nos enchiam os ouvidos de sonhos, enquanto o autocarro descia a quarta ou quinta avenida, já não me consigo recordar ao certo qual seria, para nos deixar finalmente na estação da baixa de Nova Iorque.
Seguíamos, sempre de cigarro na boca, pelas ruas da cidade iluminada, sonhando com anjos pedintes e com fortuna fácil.
Beijávamos celebridades e encontrávamos velhos amigos
ricos e lindos)
no Plaza e no Ritz. Dançávamos ao som dos mais recentes djs, bebericando caros cocktails e sorrindo a sorrisos (des)conhecidos. Tagarelávamos sobre as mais recentes fofocas e os mais importantes acordos e contratos de trabalhos televisivos e muito bem pagos. Éramos tão
beautiful people)
aquilo que nunca verdadeiramente fomos. Éramos únicos, imprescindíveis, e certos de que o mundo esperava por nós tal como nós o aguardávamos – de cigarro na boca e sorriso de criança.
Quando fecho os olhos, agora, sentada nesta cadeira de rodas e rodeada por estas cruas paredes brancas, já não te consigo imaginar sentado ao meu lado, cuspindo sobre o meu cuspo no chão oleoso, vendo as cinzas dos cigarros levantarem e partirem ao sabor do vento, cantarolando lânguidas canções poéticas,
we smoked the last one an hour ago…)
enquanto colocavas a medo a tua mão grossa sobre as minhas saias, sentindo o calor das minhas pernas e o palpitar da indecisão.
Agora, sempre que acendo um cigarro
à sucapa das enfermeiras)
entre as salas de quimioterapia, com o cuidado de lançar o fumo para o frio da noite e não ser apanhada pelo cheiro a tabaco, já não me consigo imaginar sentada ao teu lado Não me consigo imaginar em nenhuma paragem de autocarro, ansiando a chegada de alguém que me leve para muito longe.
Não quero ir para muito longe, já não quero.
Agora, vestindo esta bata branca que deixa entrar o frio pelas costuras ao longo do meu corpo macerado
velho)
e flácido pelos anos de espera sentada, agora, o tempo não é de busca nem de espera. É um tempo de estar. De simplesmente estar, aqui, sentada nesta cadeira de rodas como outrora na paragem a teu lado, cuspindo para o chão o catarro das sessões, e aguardando calma e pacientemente que chegue a hora de me levantar, cansada que estou de esperar, para finalmente sair deste quarto branco e frio, de bata branca no braço e
não de cadeira de rodas)
com um certo brilho indefinido de esperança de te voltar a ver, de voltar a sentir o teu cuspo em cima do meu, de te saber ao meu lado, como sempre estiveste, afagando-me calmamente o coração sempre que pousavas a tua mão grossa em cima das minhas saias.
read my lips
hoje, finalmente, o macaco-mor veio às televisões mundiais anunciar que, afinal, os EUA sempre têm, e sempre tiveram, prisões para interrogatório a suspeitos terroristas fora do território norte-americano. Mas nós já sabíamos... aliás, todas as nações do mundo já o sabiam. Como também já sabíamos que a incursão dos americanos no Iraque não teve como primordial intenção terminar com países que ajudam ou mantêm actividades terroristas-anti-democráticas-pró-liberais como a restante massa associativa mundial - afinal, se assim fosse, como estaria o Líbano, a Palestina, o Irão, entre tantos outros que, como já sabemos, ajudam ou possuem bases de treino a terroristas.
Também já sabíamos que a ideia nunca foi capturar bin laden. Se fosse, querem fazer-nos crer que aquelas desculpas de seres humanos já não o teriam apanhado?? Eles, que com os seus mísseis ultra-mini-super-altamente-sofisticados-que-acertam-numa-agulha-no-meio-de-um-celeiro-a-mil-quilómetros-de-distância, juntamente com a NSA e toda a "intelligence" e "counter-intelligence" que possuem não conseguem encontrar um homem? Então e os espiões? E os Rambos-de-bandeira-vermelha-branca-azul ao peito?
Também já sabíamos que os EUA não iriam ajudar o Líbano, nem tampouco fazer mais do que uma ou duas visitinhas diplomáticas a roçar o "vá lá, não sejas sacaninha para os rapazes... vê se paras com esta chacina" para depois poderem dizer que tentaram.
Então para quê esta súbita aparição confessionária do macaco-mor? Será pelo crescente fracasso do Iraque (e ainda bem) que o tem posto tão abaixo das espectativas nas sondagens? Será pela ameaça crescente de uma forte candidata(o) democrata à presidência? Não será uma pequenina tentativa de cosmética, do género "vá lá, somos sinceros... quando temos que admitir, admitimos para que não nos chateem"?
Gostei particularmente da parte do discurso em que o macaco diz que os restantes macacos não usam a tortura...
eheheheheheheheheheh,
desculpem, não me consegui conter....
... e que o macaco-mor não autorizou
eheheheheheheheh
nem nunca autorizará
eheheheheheh
tortura aos presos que eles insistem em manter sob prisão preventiva, sem qualquer tipo de direito humano, sem qualquer espécie de condenação ou suspeita provada... Bem, faz-me lembrar um certo senhor que um dia disse que não iria aumentar os impostos que o Congresso tanto insistia para que o fizesse. Como é que foi mesmo? Ah
the congress has pushed me to raise taxes and I say No
Read my lips... read my lips... read my lips...
vão lá explicar a quem sentiu o orçamento ficar mais apertado, que afinal os lábios não se moveram.
nihildom
Segunda-feira, Setembro 04, 2006
teatro (ou a falta dele)
É sempre reconfortante voltar a casa. Talvez esta nostalgia se venha a agudizar ao longo da nossa vida, à medida que envelhecemos e nos sentimos cada vez mais longe do que outrora fomos. Onde antes sentíamos que não queriamos voltar a casa, que gostariamos que as nossas férias no continente ou estrangeiro não acabassem nunca, sentimos agora uma grande vontade de voltar a sentir a humidade do nosso ar, as nuvens que nos cobrem, o chão que pisamos e tudo o mais que nos faz sentir em casa quando voltamos para o sítio de onde partimos.
De volta de Lisboa, onde estive uns míseros três dias, sinto, contudo, que não estou a voltar a casa, mas sim a uma vaga imagem nostálgica que teima em desaparecer, de cada vez que olho em meu redor e me apercebo que em todo o lado, à excepção de Angra, se passa alguma coisa de teatro. São Miguel fervilha com peças de qualidade (algumas nem tanto, mas têm-nas) e a Terceira, que outrora fora considerada capital da cultura dos Açores (se tal faz sentido afirmar), está votada ao abandono no que concerne a peças de teatro. O Teatro Angrense teima em continuar de portas fechadas, sem ninguém que o faça renascer das cinzas, o Centro Cultural teima em viver da Internet e dos poucos filmes que exibe, e não fosse o Angra Rock e o Angra Jazz (4 a 7 de Outubro) não haveria nada em Angra que nos desse vontade de ver... especialmente teatro. E atenção, não sejamos cegos, o teatro tem muita força em Angra (e na Terceira em geral), mas parece que quem é responsável por este tipo de programação teima em aparecer esporadicamente (como as chuvas de estrelas cadentes visíveis em Portugal) e em estar de costas voltadas para parcerias com outras instituições ou edilidades que poderiam muito bem ser uma mais valia para Angra e para a Terceira.
paciência... temos o que merecemos... fomos nós que votámos (no duplo sentido da palavra) Angra a este marasmo mórbido e atípico
nihildom
Sexta-feira, Agosto 25, 2006
a. (amanhã)
Olha, não é nada de especial o que te quero dizer, a sério, mas acho que, uma vez que te foste embora, não seria nada má ideia dizer-te como é que as coisas ficaram desde que saíste. Em primeiro lugar, bem… nem sei se deveria enumerar tudo aquilo que tenho para te dizer, assim, como se fosse uma lista do supermercado, daquelas listas que nós fazemos quando pensamos, erradamente,
André)
que ir ao supermercado, a um mero supermercado que, na maior parte das vezes, fica situado a menos de um quilómetro de nossa casa, é uma coisa banal. Daquelas coisas sem importância que têm de ser feitas, como sair de casa para trabalhar, quer chova quer faça sol, com a mesma cara que tínhamos no dia anterior ao nos deitarmos, uma cara cansada, gasta pelo tempo, sem ânimo de vida, sem nada que diga
amanhã, talvez)
que a vida não é só isto. Uma cara hipotecada e obesa, de tantos jantares e convívios com os amigos que não conseguimos adiar, porque socialmente as coisas sempre foram feitas desta maneira, desta convivência febril, interesseira e motivada. Uma cara
amanhã, talvez será diferente)
que víamos nos retratos de família dos nossos avós, de cara hirta, maquiada pela mão do fotógrafo, tratadas no laboratório de forma monocromática, desajeitada e falsa. Aquele tipo de cara que antigamente nos faria olhar para o lado em desgosto, em tristeza e promessa velada entre dentes que, se tudo corresse bem, nós não seríamos assim, nós não teríamos aquelas caras poeirentas e cansadas, que nós seríamos alegres, contentes, felizes com o que a nossa vida nos tinha proporcionado
amanhã, quem sabe?)
caso tivéssemos ou não trabalhado arduamente para isso.
Mas as coisas, André, não são assim. Não, a vida não se pode resumir a isso, a um empacotar de caixotes vazios de existência, esperando ostentar não o conteúdo de um, mas a massa e o volume de muitos. A vida pode ser, e tu sabes disso, um contínuo despertar de consciência, de realidade visível e palpável. A vida pode ser um simples pôr-do-sol, multicolor, espelhando na calma do azul do mar uma imensidão de possibilidades, de caminhos a percorrer
amanhã, sim)
com esta simples e clara consciência, presente na parte de trás do cortinado do nosso cérebro. Lá, onde as consciências estão, lá bem no fundo, no poço de infinita alma que somos nós, a que convencionámos chamar de coração, ora pelo aperto ora pela alegria, lá nesse fundo está esta consciência, esta simples e clara consciência de que o mundo não se repete, a vida não tem replay nem possibilidades de retirarmos o jogo e amanhã voltarmos a jogar, jogando sempre do último sítio em que nos encontrávamos com a máxima energia, a melhor pontuação e o máximo de pontos ganhos nos percursos laterais
pós-laborais)
em que nos dedicámos a procurar tesouros escondidos, pontuações extra para aqueles jogadores que sabem, lá no fundo, que a beleza do jogo não está em chegar com uma boa pontuação ao fim, mas sim em explorar todos os recantos, todas as oportunidades que a vida durante aquele jogo nos dá, para que possamos verdadeiramente triunfar. Sermos verdadeira e conscientemente chamados de triunfantes, de vencedores.
Mas não, André. A vida não tem esta possibilidade. A vida é um jogo duro, um jogo no qual somos colocados, assim, do nada, e ainda nem sabemos controlar bem o jogador e já estamos em plena batalha. E tentamos
a sério que tentamos)
aprender as regras do jogo à medida que o vamos jogando e, em certos níveis, uns mais fáceis, outros mais difíceis, conseguirmos tirar um pouco de tempo para, antes de passarmos ao nível seguinte, explorarmos um pouco o campo e procurarmos aqueles tais tesouros escondidos, aquelas pontuações extra para os verdadeiros destemidos, para os conscientes das regras do jogo, para aqueles que verdadeiramente têm vontade de aprender as regras e ao mesmo tempo explorar os recantos do jogo.
amanhã, quem sabe?)
E ao tentarmos, sabemos que verdadeiramente não podemos nunca ter perdido o jogo. Sabemos que, em pior nível de energia que nos encontremos, com a pior pontuação possível até então, nas piores adversidades do jogo, se perdermos, se abandonarmos o jogo antes de chegarmos ao fim do trajecto, pelo menos sabemos que jogámos pelas regras do jogo. Que isso nunca ninguém nos pode tirar, o termos jogado apaixonadamente o jogo, com todos os seus defeitos, com todas as suas armadilhas, com todos os seus falsos tesouros e mensagens enganosas. Mas na verdade
André)
na verdade é que tudo se resume a isto: tu foste um excelente jogador. Terias a máxima pontuação no fim, sabes disso, não sabes?
Olha, não sei se era exactamente isto o que tinha pensado em escrever-te quando soube que te tinhas ido embora. Não sei, sinto que havia muito mais para te escrever. Sinto que todas as folhas do mundo seriam poucas para tudo aquilo que te queria dizer, mas infinitamente grandes para o nada que tenho para te dizer. Não sei, também acho que lhe falta o tom, que há algo entre o que tenho para te dizer e os meios de que te disponho que impede uma perfeita comunicação.
Não sei. Mas amanhã digo-te tudo quando voltares. Digo-te tudo melhor, quando este eterno hoje, no qual jogo como já jogaste, terminar. Seja antes ou quando chegar ao fim. Entretanto, vou tentando encontrar alguma pontuação extra para ti.
Até amanhã.
André)
que ir ao supermercado, a um mero supermercado que, na maior parte das vezes, fica situado a menos de um quilómetro de nossa casa, é uma coisa banal. Daquelas coisas sem importância que têm de ser feitas, como sair de casa para trabalhar, quer chova quer faça sol, com a mesma cara que tínhamos no dia anterior ao nos deitarmos, uma cara cansada, gasta pelo tempo, sem ânimo de vida, sem nada que diga
amanhã, talvez)
que a vida não é só isto. Uma cara hipotecada e obesa, de tantos jantares e convívios com os amigos que não conseguimos adiar, porque socialmente as coisas sempre foram feitas desta maneira, desta convivência febril, interesseira e motivada. Uma cara
amanhã, talvez será diferente)
que víamos nos retratos de família dos nossos avós, de cara hirta, maquiada pela mão do fotógrafo, tratadas no laboratório de forma monocromática, desajeitada e falsa. Aquele tipo de cara que antigamente nos faria olhar para o lado em desgosto, em tristeza e promessa velada entre dentes que, se tudo corresse bem, nós não seríamos assim, nós não teríamos aquelas caras poeirentas e cansadas, que nós seríamos alegres, contentes, felizes com o que a nossa vida nos tinha proporcionado
amanhã, quem sabe?)
caso tivéssemos ou não trabalhado arduamente para isso.
Mas as coisas, André, não são assim. Não, a vida não se pode resumir a isso, a um empacotar de caixotes vazios de existência, esperando ostentar não o conteúdo de um, mas a massa e o volume de muitos. A vida pode ser, e tu sabes disso, um contínuo despertar de consciência, de realidade visível e palpável. A vida pode ser um simples pôr-do-sol, multicolor, espelhando na calma do azul do mar uma imensidão de possibilidades, de caminhos a percorrer
amanhã, sim)
com esta simples e clara consciência, presente na parte de trás do cortinado do nosso cérebro. Lá, onde as consciências estão, lá bem no fundo, no poço de infinita alma que somos nós, a que convencionámos chamar de coração, ora pelo aperto ora pela alegria, lá nesse fundo está esta consciência, esta simples e clara consciência de que o mundo não se repete, a vida não tem replay nem possibilidades de retirarmos o jogo e amanhã voltarmos a jogar, jogando sempre do último sítio em que nos encontrávamos com a máxima energia, a melhor pontuação e o máximo de pontos ganhos nos percursos laterais
pós-laborais)
em que nos dedicámos a procurar tesouros escondidos, pontuações extra para aqueles jogadores que sabem, lá no fundo, que a beleza do jogo não está em chegar com uma boa pontuação ao fim, mas sim em explorar todos os recantos, todas as oportunidades que a vida durante aquele jogo nos dá, para que possamos verdadeiramente triunfar. Sermos verdadeira e conscientemente chamados de triunfantes, de vencedores.
Mas não, André. A vida não tem esta possibilidade. A vida é um jogo duro, um jogo no qual somos colocados, assim, do nada, e ainda nem sabemos controlar bem o jogador e já estamos em plena batalha. E tentamos
a sério que tentamos)
aprender as regras do jogo à medida que o vamos jogando e, em certos níveis, uns mais fáceis, outros mais difíceis, conseguirmos tirar um pouco de tempo para, antes de passarmos ao nível seguinte, explorarmos um pouco o campo e procurarmos aqueles tais tesouros escondidos, aquelas pontuações extra para os verdadeiros destemidos, para os conscientes das regras do jogo, para aqueles que verdadeiramente têm vontade de aprender as regras e ao mesmo tempo explorar os recantos do jogo.
amanhã, quem sabe?)
E ao tentarmos, sabemos que verdadeiramente não podemos nunca ter perdido o jogo. Sabemos que, em pior nível de energia que nos encontremos, com a pior pontuação possível até então, nas piores adversidades do jogo, se perdermos, se abandonarmos o jogo antes de chegarmos ao fim do trajecto, pelo menos sabemos que jogámos pelas regras do jogo. Que isso nunca ninguém nos pode tirar, o termos jogado apaixonadamente o jogo, com todos os seus defeitos, com todas as suas armadilhas, com todos os seus falsos tesouros e mensagens enganosas. Mas na verdade
André)
na verdade é que tudo se resume a isto: tu foste um excelente jogador. Terias a máxima pontuação no fim, sabes disso, não sabes?
Olha, não sei se era exactamente isto o que tinha pensado em escrever-te quando soube que te tinhas ido embora. Não sei, sinto que havia muito mais para te escrever. Sinto que todas as folhas do mundo seriam poucas para tudo aquilo que te queria dizer, mas infinitamente grandes para o nada que tenho para te dizer. Não sei, também acho que lhe falta o tom, que há algo entre o que tenho para te dizer e os meios de que te disponho que impede uma perfeita comunicação.
Não sei. Mas amanhã digo-te tudo quando voltares. Digo-te tudo melhor, quando este eterno hoje, no qual jogo como já jogaste, terminar. Seja antes ou quando chegar ao fim. Entretanto, vou tentando encontrar alguma pontuação extra para ti.
Até amanhã.
second skin
música:moonspell:second_skin
tal como a música, a segunda pele surge sobre a primeira, mesma composição, mesma natureza... chegou assim a um ano de artigos na Açores Mundo, entretando falida, e recomeço a minha produção literária noutra revista: Atlântida Magazine
a partir de agora os artigos são marcados por letras e não por números
nihildom
.25 ZEN
É sempre no silêncio de sentir-me sozinho que o medo me invade.
Quando tudo está dormindo e já nada me vale, quando a noite cobre a redoma do céu, escura e misteriosa, pressinto que sinto um vulto algures no interior desta grande casa fria, branca, pálida de solidão. Aqui, algures, há um estado de alma que de mim não partiu, não se gerou,
gerado, não criado)
mas em mim encontrou onde se aninhar.
E vagueia, algures…
Sinto enterrar-me na moleza deste chão flutuante de madeira, crispado, opaco mas transparente ao vulto, a essa presença que não consigo identificar, a esse crescendo de medo que me invade de cada vez que estou sozinho,
sozinho, não só)
de cada vez que sinto esta vontade imensa de olhar por sobre o meu ombro direito. Não sobre o esquerdo, que a articulação das minhas vértebras impede-me vislumbrar seja o que for que se movimente atrás de mim.
E os meus passos vão-se progressivamente enterrando na madeira, até ficarem cobertos, até os tornozelos se sentirem apertados,
não apartados, apertados)
e até os joelhos, duros na sua articulação reumática, se sentirem imobilizados.
E então é neste silêncio, onde já nada me vale, que sinto um peso sobre o meu corpo vergado: um peso deveras leve, etéreo, cuja massa me suga, me imobiliza continuamente, calmamente, como se todo o tempo do mundo
não o meu, o do mundo)
estivesse ao seu dispor e nada o pudesse assustar, desviar, mudar de sentido o sentido da sua orientação horizontal. De cima para baixo, sinto o vulto enterrar-me cada vez mais neste chão de madeira.
Tento gritar. Vislumbro ao longe as escadas, o corrimão de madeira, talvez segurar-me nele e sair deste abismo.
Abro a boca mas o som perde-se algures por entre as veias dos meus pulmões, o ar dissipa-se, em osmose somática, em osmose celular com o dióxido de carbono, e evapora-se por entre os meus poros esmagado pelo vulto.
O vulto, meu deus,
meu, deus, não teu)
o vulto volta rodando três vezes. E eu tremo. Tremo de medo e de imobilidade, de coragem e de improbabilidade face à diferença de força, de destreza, eu que estou imóvel, de boca aberta tentando gritar…
Fecho os olhos e estou de novo na entrada da casa. Esta casa branca, fria, pálida, grande vazia como a ajuda que nunca chega. A porta da entrada está trancada.
Verifico a chave na fechadura
é dura e fecha, a chave)
e rodo-a diversas vezes até não mais a conseguir rodar. Olho sobre o meu ombro direito, prestes a desfazer o trinco e voltar a sair de casa.
Nada.
Silêncio.
E é sempre neste silêncio de sentir-me sozinho que o medo me invade. É sempre ao entrar neste átrio,
eco eco eco eco)
quando o manto da noite cobre já completamente a redoma do céu, que o medo me invade.
Atravesso o átrio – eco eco – os meus passos nas paredes frias e brancas, e aproximo-me das escadas que dão ao andar de cima. À minha volta fito os quadros, e os quadros fitam-me a mim, sorrindo uns, estáticos outros, com os seus olhos falsos que me seguem para onde vá, para onde vá o vulto.
Subo as escadas de madeira, seguro ao corrimão que as acompanha, e viro à direita. O vulto… sinto sempre um vulto que me segue quando eu sigo calmamente no corredor desta casa grande
corre o sangue e dói-me as veias)
e tento a todo o custo chegar à cama. Olho à minha esquerda, palpo as paredes do corredor, sinto os pés enterrarem-se de novo na madeira, rapidamente tento alcançar a janela. O céu está escuro, coberto, o mistério da noite por sobre as nossas cabeças
a minha, a do vulto)
relembram-nos de que não estamos sós. Nunca estivemos sós. E são os quadros no átrio que me seguem quando sigo por este corredor, e são as vozes dos antepassados que me sussurram palavras de outrora, de outras eras, de outros tempos, cadenciados na sua monotonia de mortos, de velhos
de outros tempos)
de caquécticas imagens de decrepitude.
Fecho a janela…. sinto-me sozinho, olho à minha volta, sinto os pés enterrarem-se na madeira do corredor. Corredor, eu, tentando correr para chegar ao meu quarto, mas a madeira é mais rápida, mais ágil, entrelaça-se nos meus tornozelos, subindo devagar até aos meus joelhos reumáticos.
Tento gritar, os meus pulmões não me respondem… adormeceram, a dor no peito, a dor no peitoril da janela onde a minha mão esquerda pousa, tentando
silêncio)
recuperar o fôlego, o ânimo, a vontade de continuar até ao quarto para me deitar e fechar os olhos, respirar fundo, e abrir os olhos e estar de volta na entrada desta casa grande, branca, fria, fitando estupidamente a porta de entrada, a chave no trinco, rodada três vezes.
Três vezes confirmada.
Quando tudo está dormindo e já nada me vale, quando a noite cobre a redoma do céu, escura e misteriosa, pressinto que sinto um vulto algures no interior desta grande casa fria, branca, pálida de solidão. Aqui, algures, há um estado de alma que de mim não partiu, não se gerou,
gerado, não criado)
mas em mim encontrou onde se aninhar.
E vagueia, algures…
Sinto enterrar-me na moleza deste chão flutuante de madeira, crispado, opaco mas transparente ao vulto, a essa presença que não consigo identificar, a esse crescendo de medo que me invade de cada vez que estou sozinho,
sozinho, não só)
de cada vez que sinto esta vontade imensa de olhar por sobre o meu ombro direito. Não sobre o esquerdo, que a articulação das minhas vértebras impede-me vislumbrar seja o que for que se movimente atrás de mim.
E os meus passos vão-se progressivamente enterrando na madeira, até ficarem cobertos, até os tornozelos se sentirem apertados,
não apartados, apertados)
e até os joelhos, duros na sua articulação reumática, se sentirem imobilizados.
E então é neste silêncio, onde já nada me vale, que sinto um peso sobre o meu corpo vergado: um peso deveras leve, etéreo, cuja massa me suga, me imobiliza continuamente, calmamente, como se todo o tempo do mundo
não o meu, o do mundo)
estivesse ao seu dispor e nada o pudesse assustar, desviar, mudar de sentido o sentido da sua orientação horizontal. De cima para baixo, sinto o vulto enterrar-me cada vez mais neste chão de madeira.
Tento gritar. Vislumbro ao longe as escadas, o corrimão de madeira, talvez segurar-me nele e sair deste abismo.
Abro a boca mas o som perde-se algures por entre as veias dos meus pulmões, o ar dissipa-se, em osmose somática, em osmose celular com o dióxido de carbono, e evapora-se por entre os meus poros esmagado pelo vulto.
O vulto, meu deus,
meu, deus, não teu)
o vulto volta rodando três vezes. E eu tremo. Tremo de medo e de imobilidade, de coragem e de improbabilidade face à diferença de força, de destreza, eu que estou imóvel, de boca aberta tentando gritar…
Fecho os olhos e estou de novo na entrada da casa. Esta casa branca, fria, pálida, grande vazia como a ajuda que nunca chega. A porta da entrada está trancada.
Verifico a chave na fechadura
é dura e fecha, a chave)
e rodo-a diversas vezes até não mais a conseguir rodar. Olho sobre o meu ombro direito, prestes a desfazer o trinco e voltar a sair de casa.
Nada.
Silêncio.
E é sempre neste silêncio de sentir-me sozinho que o medo me invade. É sempre ao entrar neste átrio,
eco eco eco eco)
quando o manto da noite cobre já completamente a redoma do céu, que o medo me invade.
Atravesso o átrio – eco eco – os meus passos nas paredes frias e brancas, e aproximo-me das escadas que dão ao andar de cima. À minha volta fito os quadros, e os quadros fitam-me a mim, sorrindo uns, estáticos outros, com os seus olhos falsos que me seguem para onde vá, para onde vá o vulto.
Subo as escadas de madeira, seguro ao corrimão que as acompanha, e viro à direita. O vulto… sinto sempre um vulto que me segue quando eu sigo calmamente no corredor desta casa grande
corre o sangue e dói-me as veias)
e tento a todo o custo chegar à cama. Olho à minha esquerda, palpo as paredes do corredor, sinto os pés enterrarem-se de novo na madeira, rapidamente tento alcançar a janela. O céu está escuro, coberto, o mistério da noite por sobre as nossas cabeças
a minha, a do vulto)
relembram-nos de que não estamos sós. Nunca estivemos sós. E são os quadros no átrio que me seguem quando sigo por este corredor, e são as vozes dos antepassados que me sussurram palavras de outrora, de outras eras, de outros tempos, cadenciados na sua monotonia de mortos, de velhos
de outros tempos)
de caquécticas imagens de decrepitude.
Fecho a janela…. sinto-me sozinho, olho à minha volta, sinto os pés enterrarem-se na madeira do corredor. Corredor, eu, tentando correr para chegar ao meu quarto, mas a madeira é mais rápida, mais ágil, entrelaça-se nos meus tornozelos, subindo devagar até aos meus joelhos reumáticos.
Tento gritar, os meus pulmões não me respondem… adormeceram, a dor no peito, a dor no peitoril da janela onde a minha mão esquerda pousa, tentando
silêncio)
recuperar o fôlego, o ânimo, a vontade de continuar até ao quarto para me deitar e fechar os olhos, respirar fundo, e abrir os olhos e estar de volta na entrada desta casa grande, branca, fria, fitando estupidamente a porta de entrada, a chave no trinco, rodada três vezes.
Três vezes confirmada.
Sábado, Abril 15, 2006
.24 (XANAX)
Tento instalar o novo software, versão actualizada para a manutenção e desfragmentação deste disco rígido que continuamente volteia no meu crânio, tentando a todo o custo manter nos mesmos clusters a informação mais pertinente, menos desalocada, mais contínua, para que possa mais facilmente aceder
versão 7.0.sg.200634)
quando dela necessitar, mas não consigo. Algo me impede de o instalar, de o actualizar, de o aceder…
Tento fazer uma pesquisa ou aceder à base de informação cerebral à procura de uma resposta para o meu problema: será o firmware? Necessitarei de fazer um flash à minha bios? Será necessário fazer tabula rasa de tudo, formatar, descansar, não me preocupar, não informar, não saber, não querer saber, detestar o conhecimento, o preenchimento de formulários, a resposta à carta do banco, a apresentação dos dados incorrectos, o encher o depósito com gasolina, atender à campainha, à solicitação
boas tarde, irmão)
dos elders, das companhias telefónicas, das empresas de mediação, de créditos bancários, de novas e inovadoras formas de engate, de desgaste, de perfume, de conversa, de fazer amigos, de saber inovar, de saber progredir, ser alguém na vida, de comprar a nova televisão, de oferecer uma garrafa de vinho no aniversário do primo do cunhado do sobrinho do meu patrão,
o novo método de fazer amigos e influenciar pessoas)
de tentar ganhar mais dinheiro, de ter padrinhos, ou de não ter padrinhos? Será possível esquecer tudo isto, ir para a floresta e viver despreocupadamente como Walden, rabiscando palavras numa folha de papel?
reciclada-bio-degradável-amiga-do-ambiente)
Será o renegar a sociedade, renegar o stress, renegar o dentista, o ortopedista, o dermatologista, o otorrinolaringologista, o oculista, o raio-que-partista, e todos os demais parasistas que me assolam? … Que me consomem
compre o novo seat, fiat, vw, bmw, opel, compre um carro qualquer
e receba uma mulher para o acompanhar na sua viagem)
e me desfragmentam o cérebro?
Saio de casa com dois updates para fazer, um download, quatro uploads e cinco mensagens de e-mail não respondidas, percorro o caminho até ao trabalho entre duas chamadas não atendidas,
uma do colégio, outra de uma promoção de vendas)
e começo a trabalhar por entre duas folhas de cálculo, um documento de texto e o rádio da Internet a debitar as mais recentes informações do mundo que não reconheço a não ser pelos conteúdos pixelizados do windows media player que nunca funciona como deveria, tal como nada funciona como deveria, como o meu patrão não está a cumprir a lei e é preciso, por entre telefonemas e ir buscar os miúdos à escola, passar por um conhecido que é advogado e solicitar uma cópia do código de trabalho
secção v, artigo ii, subsecção vi, pontos 4 e 5 e alíneas a) e
com emendas à lei 2534/19283 tal como a emenda publicada em
decreto-lei do ano passado e já em vigor)
enquanto atendo aos trabalhos de casa das crianças – a raiz quadrada da hipotenusa da cordilheira dos andes quando x tende para o infinito do rift atlântico e a metáfora da placa tectónica se entrecruza numa cambalhota arqueada da expressividade do recurso estilístico e o resultado é 02 que, como todos nós leigos sabemos não é necessariamente 0 dada a teoria da relatividade dos sexos e da área de projecto do estudo acompanhado das redes múltiplas e dos links das páginas da Internet.
E chego involuntariamente ao jantar com o plástico retirado da embalagem
apenas 230 Kcal por unidade)
dos hambúrgueres, colocado no microondas, aquecido como indica a embalagem, furando o plástico para que o verdadeiro sabor à carne de peru possa mais facilmente ser saboreado pelos meus impulsos eléctricos que ainda não estão completamente desfragmentados – a versão actualizada é incompatível com o sistema operativo cerebral anteriormente instalado – e por causa dos quais terei de efectivamente levar o cérebro a arranjar,
o mais depressa possível)
uma vez que a desfragmentação é uma coisa pouco saudável: estudos científicos comprovam através de a mais b que a desfragmentação não controlada por medicação pode levar a máquina a encetar processos e a executar programas pouco desejáveis face à restante população.
Provado está, através de estudos, que a não organização do cérebro
quer através de flashes à bios ou desfragmentação actualizada)
provoca elevados níveis de instabilidade, de precariedade laboral e funcional. Ninguém quer que isto aconteça à sua máquina – e eu, como todas as outras pessoas, também não quero que isto aconteça com a minha. Então, analisando as minhas parcas economias
que a inflacção, o choque tecnológico,
a venda extraordinária de património de estado
e demais artimanhas não resolveram ainda o défice)
e as opções que actualmente me restam – uma vez que a instalação da mais recente versão não funcionou devido ao sistema operativo desactualizado – deito-me finalmente na cama sem olhar para as horas nem para o teletexto da televisão nem para o relógio do leitor de mp3 na mesa-de-cabeceira, e estendo a mão à gaveta.
Retiro a caixa de cartão antiga, não actualizada, não desfragmentada, mas hermeticamente selada, e levo o comprimido à boca.
Amanhã, de certeza, o mundo será de novo um sítio bom para se viver
…………………………………………………………………………………......................................………….ou não.
versão 7.0.sg.200634)
quando dela necessitar, mas não consigo. Algo me impede de o instalar, de o actualizar, de o aceder…
Tento fazer uma pesquisa ou aceder à base de informação cerebral à procura de uma resposta para o meu problema: será o firmware? Necessitarei de fazer um flash à minha bios? Será necessário fazer tabula rasa de tudo, formatar, descansar, não me preocupar, não informar, não saber, não querer saber, detestar o conhecimento, o preenchimento de formulários, a resposta à carta do banco, a apresentação dos dados incorrectos, o encher o depósito com gasolina, atender à campainha, à solicitação
boas tarde, irmão)
dos elders, das companhias telefónicas, das empresas de mediação, de créditos bancários, de novas e inovadoras formas de engate, de desgaste, de perfume, de conversa, de fazer amigos, de saber inovar, de saber progredir, ser alguém na vida, de comprar a nova televisão, de oferecer uma garrafa de vinho no aniversário do primo do cunhado do sobrinho do meu patrão,
o novo método de fazer amigos e influenciar pessoas)
de tentar ganhar mais dinheiro, de ter padrinhos, ou de não ter padrinhos? Será possível esquecer tudo isto, ir para a floresta e viver despreocupadamente como Walden, rabiscando palavras numa folha de papel?
reciclada-bio-degradável-amiga-do-ambiente)
Será o renegar a sociedade, renegar o stress, renegar o dentista, o ortopedista, o dermatologista, o otorrinolaringologista, o oculista, o raio-que-partista, e todos os demais parasistas que me assolam? … Que me consomem
compre o novo seat, fiat, vw, bmw, opel, compre um carro qualquer
e receba uma mulher para o acompanhar na sua viagem)
e me desfragmentam o cérebro?
Saio de casa com dois updates para fazer, um download, quatro uploads e cinco mensagens de e-mail não respondidas, percorro o caminho até ao trabalho entre duas chamadas não atendidas,
uma do colégio, outra de uma promoção de vendas)
e começo a trabalhar por entre duas folhas de cálculo, um documento de texto e o rádio da Internet a debitar as mais recentes informações do mundo que não reconheço a não ser pelos conteúdos pixelizados do windows media player que nunca funciona como deveria, tal como nada funciona como deveria, como o meu patrão não está a cumprir a lei e é preciso, por entre telefonemas e ir buscar os miúdos à escola, passar por um conhecido que é advogado e solicitar uma cópia do código de trabalho
secção v, artigo ii, subsecção vi, pontos 4 e 5 e alíneas a) e
com emendas à lei 2534/19283 tal como a emenda publicada em
decreto-lei do ano passado e já em vigor)
enquanto atendo aos trabalhos de casa das crianças – a raiz quadrada da hipotenusa da cordilheira dos andes quando x tende para o infinito do rift atlântico e a metáfora da placa tectónica se entrecruza numa cambalhota arqueada da expressividade do recurso estilístico e o resultado é 02 que, como todos nós leigos sabemos não é necessariamente 0 dada a teoria da relatividade dos sexos e da área de projecto do estudo acompanhado das redes múltiplas e dos links das páginas da Internet.
E chego involuntariamente ao jantar com o plástico retirado da embalagem
apenas 230 Kcal por unidade)
dos hambúrgueres, colocado no microondas, aquecido como indica a embalagem, furando o plástico para que o verdadeiro sabor à carne de peru possa mais facilmente ser saboreado pelos meus impulsos eléctricos que ainda não estão completamente desfragmentados – a versão actualizada é incompatível com o sistema operativo cerebral anteriormente instalado – e por causa dos quais terei de efectivamente levar o cérebro a arranjar,
o mais depressa possível)
uma vez que a desfragmentação é uma coisa pouco saudável: estudos científicos comprovam através de a mais b que a desfragmentação não controlada por medicação pode levar a máquina a encetar processos e a executar programas pouco desejáveis face à restante população.
Provado está, através de estudos, que a não organização do cérebro
quer através de flashes à bios ou desfragmentação actualizada)
provoca elevados níveis de instabilidade, de precariedade laboral e funcional. Ninguém quer que isto aconteça à sua máquina – e eu, como todas as outras pessoas, também não quero que isto aconteça com a minha. Então, analisando as minhas parcas economias
que a inflacção, o choque tecnológico,
a venda extraordinária de património de estado
e demais artimanhas não resolveram ainda o défice)
e as opções que actualmente me restam – uma vez que a instalação da mais recente versão não funcionou devido ao sistema operativo desactualizado – deito-me finalmente na cama sem olhar para as horas nem para o teletexto da televisão nem para o relógio do leitor de mp3 na mesa-de-cabeceira, e estendo a mão à gaveta.
Retiro a caixa de cartão antiga, não actualizada, não desfragmentada, mas hermeticamente selada, e levo o comprimido à boca.
Amanhã, de certeza, o mundo será de novo um sítio bom para se viver
…………………………………………………………………………………......................................………….ou não.
Domingo, Fevereiro 26, 2006
.23 VEM
Olho o chão de terra que se funde numa pasta castanha com o cuspo dos meus lábios, o qual deixo cair lentamente, ao longo de um fio de saliva de difícil identificação o início, meio e fim, distendendo-se, quase ao infinito, numa elasticidade teimosa e afecta à minha falta de paciência
são duas horas)
sobre a tua demora. O sol queima-me o pescoço há bastante tempo, sinto a pele ressequir-se ao toque suave e calorento e penso no quão bom seria percorrer o teu corpo até à espinha, lambendo sofregamente o suor da tua pele, os teus mais recônditos odores e pensamentos, tragá-los, com a fome de um recluso, a cada vez que te engolisse.
Demoras-te, já o sei. E o calor aperta devagarinho, fazendo-me também suado, cansado e trôpego das cervejas
são duas e dez)
que bebi enquanto aguardava no cais por ti. Fecho os olhos por uns segundos. Ao abri-los, a cor do mar é da tua cor, da cor da tua pele, ofuscante, louca sede de poder, de sensação carnal ao toque, de respiração ofegante e incontrolada, arfando, cansando as pálpebras de tanto te consumir.
Tardas. Já no cais não há ninguém senão eu, sentado sobre duas malas de cabedal oferecidas por meu pai, algures quando o meu pai era alguém e eu seu filho, e já gastas das poucas viagens feitas e poucas as vezes desfeitas ao chegar a casa
são duas e vinte)
depois de uma longa jornada para fora de mim. O sol continua a queimar-me e eu levo a mão direita ao pescoço, numa tentativa de o tapar com a peneira dos dedos, embora sem efeito. O calor queima, o calor consome-me e derrete-me, como cubo de chocolate ao calor, pastoso, lânguido e sem acção ou valor. Estou só no cais, sozinho e só. O café apenas abre durante as horas de partidas ou chegadas,
são duas e meia)
mantendo-se depois inerte, fechado sobre si mesmo, sobre as suas bebidas, num egoísmo de alcoólico que não partilha, que se inebria quando tudo está calmo, quando as crianças estão deitadas e as mulheres a ver novelas, quando ninguém parte nem chega, neste cais de ninguém a não ser eu… só.
Eu, que nem sou de cá, nem nunca te vi,
são duas e quarenta)
senão em retalhos de uma memória que ainda me custa a identificar como sendo verdadeiramente minha, ou então breves instantes inscritos numa qualquer indefinição rememorativa, onde os cheiros se confundem com os sabores, e a verdade da tua existência parte muito mais da minha vontade do que da tua disponibilidade……………
E, não obstante, continuo aqui… no cais
são duas e cinquenta)
aguardo a tua chegada a qualquer momento, descendo ofegante a rua que será a minha salvação, de mochila às costas, o cabelo desgrenhado pelo vento e pela corrida, e então, colocando a mochila no chão – como sempre o fazes na minha ideia – e atirando o casaco que trazias à cintura para o caso de chover, dizes
- estás pronto?
que não, que não está nada como planeado, nada como idealizámos nas nossas mentes jovens e ávidas de aventura, que os teus pais
- vamos?
não acham boa ideia viajares comigo, nem vires buscar-me ao cais, nem que a vaca tussa, mas que sozinha, sozinha não vais a lado nenhum, que isto não são
são duas e cinquenta e cinco)
- vamos? estás pronto?
isto não são horas… isto já começa a ficar tarde, e o sol continua a queimar as minhas costas, agora encostadas a uma qualquer parede com sombra, fugindo às queimaduras, fugindo à humilhação, à descrença, ao vazio, tentando, tentando a todo o custo dobrar-me sobre mim mesmo, fechado, num espaço circunscrito, (in)descrito e prescrito, tentado a todo o custo voltar atrás, replanear a viagem, os contactos
são duas e cinquenta e oito)
restabelecer horários, talvez outro cais, outra espera, outro barco, não sei. Mas fazer com que esta espera não seja indefinida, permanente, eterna, que eu não fique para sempre preso a este sol e a estas duas malas, a este cais do fim do mundo… talvez, nem sei, talvez não me caiba a mim redefinir o presente, ou o passado que teima em escapulir-me por entre os dedos que tentam tapar o sol,
são duas e cinquenta e nove)
que teima em queimar-me o pescoço, que teima em vergar-se sobre o peso do calor, e os meus lábios, que teimam em cuspir a saliva que já não te pertence há muito, que nunca te pertencerá, formando poças de cuspo nesta terra batida do cais de espera, quando tudo o que faço é esperar por ti, por nós, por aquilo que foi e que nunca voltará a ser…. mas, não sei, decerto… o sol não tem culpa, tenho eu, que nunca te telefonei a avisar, nunca me aceitei como necessário à tua vinda, à tua chegada
- estás pronto? vens?
e assumi sempre que o futuro era isto… eu e tu, falando sós na imensidão de um cais vazio, à espera de um barco que nos levasse para longe… para muito longe, para onde o eu se confundisse permanentemente com o tu e o tu fosse um e só prolongamento do eu que espera
são duas horas)
sozinho neste cais…
por ti…
vem.
são duas horas)
sobre a tua demora. O sol queima-me o pescoço há bastante tempo, sinto a pele ressequir-se ao toque suave e calorento e penso no quão bom seria percorrer o teu corpo até à espinha, lambendo sofregamente o suor da tua pele, os teus mais recônditos odores e pensamentos, tragá-los, com a fome de um recluso, a cada vez que te engolisse.
Demoras-te, já o sei. E o calor aperta devagarinho, fazendo-me também suado, cansado e trôpego das cervejas
são duas e dez)
que bebi enquanto aguardava no cais por ti. Fecho os olhos por uns segundos. Ao abri-los, a cor do mar é da tua cor, da cor da tua pele, ofuscante, louca sede de poder, de sensação carnal ao toque, de respiração ofegante e incontrolada, arfando, cansando as pálpebras de tanto te consumir.
Tardas. Já no cais não há ninguém senão eu, sentado sobre duas malas de cabedal oferecidas por meu pai, algures quando o meu pai era alguém e eu seu filho, e já gastas das poucas viagens feitas e poucas as vezes desfeitas ao chegar a casa
são duas e vinte)
depois de uma longa jornada para fora de mim. O sol continua a queimar-me e eu levo a mão direita ao pescoço, numa tentativa de o tapar com a peneira dos dedos, embora sem efeito. O calor queima, o calor consome-me e derrete-me, como cubo de chocolate ao calor, pastoso, lânguido e sem acção ou valor. Estou só no cais, sozinho e só. O café apenas abre durante as horas de partidas ou chegadas,
são duas e meia)
mantendo-se depois inerte, fechado sobre si mesmo, sobre as suas bebidas, num egoísmo de alcoólico que não partilha, que se inebria quando tudo está calmo, quando as crianças estão deitadas e as mulheres a ver novelas, quando ninguém parte nem chega, neste cais de ninguém a não ser eu… só.
Eu, que nem sou de cá, nem nunca te vi,
são duas e quarenta)
senão em retalhos de uma memória que ainda me custa a identificar como sendo verdadeiramente minha, ou então breves instantes inscritos numa qualquer indefinição rememorativa, onde os cheiros se confundem com os sabores, e a verdade da tua existência parte muito mais da minha vontade do que da tua disponibilidade……………
E, não obstante, continuo aqui… no cais
são duas e cinquenta)
aguardo a tua chegada a qualquer momento, descendo ofegante a rua que será a minha salvação, de mochila às costas, o cabelo desgrenhado pelo vento e pela corrida, e então, colocando a mochila no chão – como sempre o fazes na minha ideia – e atirando o casaco que trazias à cintura para o caso de chover, dizes
- estás pronto?
que não, que não está nada como planeado, nada como idealizámos nas nossas mentes jovens e ávidas de aventura, que os teus pais
- vamos?
não acham boa ideia viajares comigo, nem vires buscar-me ao cais, nem que a vaca tussa, mas que sozinha, sozinha não vais a lado nenhum, que isto não são
são duas e cinquenta e cinco)
- vamos? estás pronto?
isto não são horas… isto já começa a ficar tarde, e o sol continua a queimar as minhas costas, agora encostadas a uma qualquer parede com sombra, fugindo às queimaduras, fugindo à humilhação, à descrença, ao vazio, tentando, tentando a todo o custo dobrar-me sobre mim mesmo, fechado, num espaço circunscrito, (in)descrito e prescrito, tentado a todo o custo voltar atrás, replanear a viagem, os contactos
são duas e cinquenta e oito)
restabelecer horários, talvez outro cais, outra espera, outro barco, não sei. Mas fazer com que esta espera não seja indefinida, permanente, eterna, que eu não fique para sempre preso a este sol e a estas duas malas, a este cais do fim do mundo… talvez, nem sei, talvez não me caiba a mim redefinir o presente, ou o passado que teima em escapulir-me por entre os dedos que tentam tapar o sol,
são duas e cinquenta e nove)
que teima em queimar-me o pescoço, que teima em vergar-se sobre o peso do calor, e os meus lábios, que teimam em cuspir a saliva que já não te pertence há muito, que nunca te pertencerá, formando poças de cuspo nesta terra batida do cais de espera, quando tudo o que faço é esperar por ti, por nós, por aquilo que foi e que nunca voltará a ser…. mas, não sei, decerto… o sol não tem culpa, tenho eu, que nunca te telefonei a avisar, nunca me aceitei como necessário à tua vinda, à tua chegada
- estás pronto? vens?
e assumi sempre que o futuro era isto… eu e tu, falando sós na imensidão de um cais vazio, à espera de um barco que nos levasse para longe… para muito longe, para onde o eu se confundisse permanentemente com o tu e o tu fosse um e só prolongamento do eu que espera
são duas horas)
sozinho neste cais…
por ti…
vem.
Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
.19 (rrrrrrrêtêpê) [o artigo que FOI publicado]
Rrrrrrrrrosna o cão, quando nos interrompe na sua caminhada desde manhã pelas nossas televisões, inocentes e desprevenidas ao seu rosnar ameaçador e inesperado. Rrrrrrrrrrrrrr, e o aviso é premente, há que fazer algo,
voltar atrás?
deixar de ver?
desligar televisor? incompreensivelmente, continuamos o nosso caminho diário, constante, habitual e desnorteante de ver quem não merece ser visto. Quem não merece estar naquela posição de rosnar, de nos fazer parar os nossos hábitos – mesmo que por instantes; de invadir o nosso quotidiano
bom dia)
quando nos preparamos para acordar para o mundo circundante, para irmos trabalhar, verdadeiramente trabalhar.
Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrosna o cão novamente. E cada rosnar é como que um acordar de mentalidades adormecidas, um uivo desesperado para que alguém acabe com a sua miséria, com a sua agonia, com aquela atitude de estar sem saber que se está; de ficar com o microfone suspenso, pedindo ajuda à régie, a alguém que verdadeiramente
boa tarde)
perceba o que se está a passar à sua volta; alguém que tenha verdadeiramente percebido a arte de falar, tenha verdadeiramente o conhecimento inerente à profissão.
Mas subitamente o cão olha-nos numa dualidade de sentimentos. Ora um olhar amestrado, assustado perante a vulnerabilidade das câmaras; ora um sentimento de que, afinal, somos nós que estamos completamente e injustamente errados, que ele sabe o que está a fazer. Um olhar seguro de quem
boa noite)
estudou o programa, de quem sabe entrevistar, de quem é verdadeiramente um profissional.
E mantemo-nos assim, ouvindo o rosnar e sentindo este impasse nas nossas mentes:
desligamos?
mandamo-los embora?
Continuamos a ouvir o que toscamente nos é apresentado como o conjunto dos acontecimentos regionais que são, de alguma maneira,
de são miguel)
nossos e relevantes para o nosso quotidiano.
Rrrrrrrosna o cão novamente. E de vez em quando confundimos o seu rosnar com o miar de um gato. E olhamos fixamente o varrimento ininterrupto do televisor, tentamos perceber o que se passou naquele instante fugaz em que estávamos a olhar para comando da televisão
mes…)
e aquele mês pareceu-nos um mas descoordenado mas confusamente fazendo todo o sentido na lógica integrada da frase proferida.
Voltamos ao comando. Sentimos com o dedo a sua superfície e decidimos que, se calhar, mais um canal acima e ouvimos verdadeiras notíc…
mes)
…e de novo aquela incógnita: aquele mês que parece um mas mas que não é mês nem mas, mas sim o rosnar de um cão que se torna subitamente no miar de um gato inofensivo, um pequeno gatinho que quer ser como os grandes cães nacionais, com programas, com telejornais, com interesse e relevância.
E sobe-lhe à cabeça a multidão, o reconhecimento, a fama efémera de um conjunto espartilhado de ilhas
una xupreficie fontal frrria)
e o rrrrrrrrrrrosnar continua.
E voltamos a ver o cão que a todo o custo tenta manter a sua pose, o seu profissionalismo que nos deveria impedir de mantermos a atenção fixa na mudança de canal.
Pronto, afinal o cão não sabe só rosnar e ladrar. O cão também mia. É um poliglota, um verdadeiro autodidacta das línguas,
aprrocimaze daxilhas)
mestre na arte do disfarce, do encobrimento, do saber-fazer-de-conta-que-se-sabe-o-que-se-está-a-fazer-sem-que-ninguém-perceba-o-constrangimento. Há que lhe tirar o chapéu
o chapé!)
pela exuberante mostra de facilidade linguística.
Afinal, não é gato que se faz passar por cão, nem cão que não sabe bem o que deve fazer… Afinal, no fundo, no fundo, é apenas um de nós, um que se engana de vez em quand…
a capital dos açores)
…e pronto. Não é nada disso.
O que vemos diariamente é um cão que nem rosnar sabe. É um exemplo deste profícuo e desnorteado ladrar que invade as nossas mentes, as nossas casas, as nossas televisões diária e continuamente até ao ponto de exaustão, ao ponto crítico de não sabermos na verdade, verdadinha, se não somos nós também pequenos gatos que temos a mania que sabemos ladrar; ou cães convencidos de que somos perfeitos e de que sabemos miar quando nos convém.
né?)
Rrrrrrosna o cão… rosnam os cães. Sem saberem rosnar nem por que razão os meteram naquele cubículo mágico a rosnar.
Nivelamos por baixo devido às contingências, aos infortúnios da insularidade, da falta de formação, da bruma, das gaivotas, dos golfinhos, das hortênsias, das furnas, dos pescadores e dos lavradores e pensamos, no fundo do fundo do mais fundo do nosso pequeno coração de gatos que, na verdade verdadinha, para quem é, bacalhau basta.
voltar atrás?
deixar de ver?
desligar televisor? incompreensivelmente, continuamos o nosso caminho diário, constante, habitual e desnorteante de ver quem não merece ser visto. Quem não merece estar naquela posição de rosnar, de nos fazer parar os nossos hábitos – mesmo que por instantes; de invadir o nosso quotidiano
bom dia)
quando nos preparamos para acordar para o mundo circundante, para irmos trabalhar, verdadeiramente trabalhar.
Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrosna o cão novamente. E cada rosnar é como que um acordar de mentalidades adormecidas, um uivo desesperado para que alguém acabe com a sua miséria, com a sua agonia, com aquela atitude de estar sem saber que se está; de ficar com o microfone suspenso, pedindo ajuda à régie, a alguém que verdadeiramente
boa tarde)
perceba o que se está a passar à sua volta; alguém que tenha verdadeiramente percebido a arte de falar, tenha verdadeiramente o conhecimento inerente à profissão.
Mas subitamente o cão olha-nos numa dualidade de sentimentos. Ora um olhar amestrado, assustado perante a vulnerabilidade das câmaras; ora um sentimento de que, afinal, somos nós que estamos completamente e injustamente errados, que ele sabe o que está a fazer. Um olhar seguro de quem
boa noite)
estudou o programa, de quem sabe entrevistar, de quem é verdadeiramente um profissional.
E mantemo-nos assim, ouvindo o rosnar e sentindo este impasse nas nossas mentes:
desligamos?
mandamo-los embora?
Continuamos a ouvir o que toscamente nos é apresentado como o conjunto dos acontecimentos regionais que são, de alguma maneira,
de são miguel)
nossos e relevantes para o nosso quotidiano.
Rrrrrrrosna o cão novamente. E de vez em quando confundimos o seu rosnar com o miar de um gato. E olhamos fixamente o varrimento ininterrupto do televisor, tentamos perceber o que se passou naquele instante fugaz em que estávamos a olhar para comando da televisão
mes…)
e aquele mês pareceu-nos um mas descoordenado mas confusamente fazendo todo o sentido na lógica integrada da frase proferida.
Voltamos ao comando. Sentimos com o dedo a sua superfície e decidimos que, se calhar, mais um canal acima e ouvimos verdadeiras notíc…
mes)
…e de novo aquela incógnita: aquele mês que parece um mas mas que não é mês nem mas, mas sim o rosnar de um cão que se torna subitamente no miar de um gato inofensivo, um pequeno gatinho que quer ser como os grandes cães nacionais, com programas, com telejornais, com interesse e relevância.
E sobe-lhe à cabeça a multidão, o reconhecimento, a fama efémera de um conjunto espartilhado de ilhas
una xupreficie fontal frrria)
e o rrrrrrrrrrrosnar continua.
E voltamos a ver o cão que a todo o custo tenta manter a sua pose, o seu profissionalismo que nos deveria impedir de mantermos a atenção fixa na mudança de canal.
Pronto, afinal o cão não sabe só rosnar e ladrar. O cão também mia. É um poliglota, um verdadeiro autodidacta das línguas,
aprrocimaze daxilhas)
mestre na arte do disfarce, do encobrimento, do saber-fazer-de-conta-que-se-sabe-o-que-se-está-a-fazer-sem-que-ninguém-perceba-o-constrangimento. Há que lhe tirar o chapéu
o chapé!)
pela exuberante mostra de facilidade linguística.
Afinal, não é gato que se faz passar por cão, nem cão que não sabe bem o que deve fazer… Afinal, no fundo, no fundo, é apenas um de nós, um que se engana de vez em quand…
a capital dos açores)
…e pronto. Não é nada disso.
O que vemos diariamente é um cão que nem rosnar sabe. É um exemplo deste profícuo e desnorteado ladrar que invade as nossas mentes, as nossas casas, as nossas televisões diária e continuamente até ao ponto de exaustão, ao ponto crítico de não sabermos na verdade, verdadinha, se não somos nós também pequenos gatos que temos a mania que sabemos ladrar; ou cães convencidos de que somos perfeitos e de que sabemos miar quando nos convém.
né?)
Rrrrrrosna o cão… rosnam os cães. Sem saberem rosnar nem por que razão os meteram naquele cubículo mágico a rosnar.
Nivelamos por baixo devido às contingências, aos infortúnios da insularidade, da falta de formação, da bruma, das gaivotas, dos golfinhos, das hortênsias, das furnas, dos pescadores e dos lavradores e pensamos, no fundo do fundo do mais fundo do nosso pequeno coração de gatos que, na verdade verdadinha, para quem é, bacalhau basta.
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006
íRIS
A íris do teu olhar é falsa, distorcida e pixelizada no ecrã do computador para o qual anseio voltar, dia após dia, buscando um alento de sensibilidade e que teimo em encontrar quando só me encontro contigo
só)
e sinto o meu olhar reflectir a luz brilhante do quadro plasmático que se encontra à minha frente. Queria conseguir percorrer tambor, cabo de cobre-banda-larga-em-fio-de-telefone, debaixo do chão, no alto dos postes, percorrer, percorrer esta distância
pequena contudo)
que nos separa – noite após noite – e voltar a percorrer fio de cobre-banda-larga-em-fio-de-telefone até ao lado de lá. Teu lado de cá, meu lado de lá. E finalmente fitar-te. Sentir que a luz que os meus olhos reflectem não é a luz pixelizada de um olhar difuso e indistinto, imperfeito e computorizado, mas a imanência da tua alegria que se esparja ao me veres cara-a-cara com o teu olhar.
A íris do teu olhar não me reflecte. E é impossível esta ideia de miraculosamente me tornar conjunto de dados
010001000011101001100011000)
que facilmente transpõem através do messenger a ligação que nos mantém vivos, e aparecer do lado de lá, como fotografia que se envia, como música que se partilha, como qualquer coisa que o computador deixa passar.
Mas o computador não deixa passar corpos, não deixar passar vida. Apenas séries de dados
*.exe; *.bat; *.mp3;*.doc)
reconhecíveis e aceitáveis de transmutar. O corpo não é transmutável, o corpo mantém-se correcta e directamente no lugar onde pertence, no lugar frio de estar sentado num quarto a olhar um ecrã plasmático ou TFTizado e sente esta ânsia de poder esticar a mão e segurar a tua face, sentir a tua pele, sentir os teus lábios, sentir o macio do teu olhar.
A íris do teu olhar é a tua essência, o teu nome, aquilo por que te chamam
no fundo da noite)
quando o sinal de offline está desligado, dando lugar à alegria de te saber presente, visível, do outro lado aguardando o meu/teu contacto. Acendo cigarro atrás de cigarro, tentando acalmar esta vontade de te dizer no teclado plástico e frio aquilo que o sangue me bombeia ao coração, dizer-te o que me apetece dizer quando não estamos distantes e separados pela ligação telefónica.
A íris do teu olhar não existe no meu universo. É etérea, falsa sensação de sensação transmissível, falsa ideia de proximidade, falsa pixelização do mundo… a íris do teu olhar é…
íris)
só)
e sinto o meu olhar reflectir a luz brilhante do quadro plasmático que se encontra à minha frente. Queria conseguir percorrer tambor, cabo de cobre-banda-larga-em-fio-de-telefone, debaixo do chão, no alto dos postes, percorrer, percorrer esta distância
pequena contudo)
que nos separa – noite após noite – e voltar a percorrer fio de cobre-banda-larga-em-fio-de-telefone até ao lado de lá. Teu lado de cá, meu lado de lá. E finalmente fitar-te. Sentir que a luz que os meus olhos reflectem não é a luz pixelizada de um olhar difuso e indistinto, imperfeito e computorizado, mas a imanência da tua alegria que se esparja ao me veres cara-a-cara com o teu olhar.
A íris do teu olhar não me reflecte. E é impossível esta ideia de miraculosamente me tornar conjunto de dados
010001000011101001100011000)
que facilmente transpõem através do messenger a ligação que nos mantém vivos, e aparecer do lado de lá, como fotografia que se envia, como música que se partilha, como qualquer coisa que o computador deixa passar.
Mas o computador não deixa passar corpos, não deixar passar vida. Apenas séries de dados
*.exe; *.bat; *.mp3;*.doc)
reconhecíveis e aceitáveis de transmutar. O corpo não é transmutável, o corpo mantém-se correcta e directamente no lugar onde pertence, no lugar frio de estar sentado num quarto a olhar um ecrã plasmático ou TFTizado e sente esta ânsia de poder esticar a mão e segurar a tua face, sentir a tua pele, sentir os teus lábios, sentir o macio do teu olhar.
A íris do teu olhar é a tua essência, o teu nome, aquilo por que te chamam
no fundo da noite)
quando o sinal de offline está desligado, dando lugar à alegria de te saber presente, visível, do outro lado aguardando o meu/teu contacto. Acendo cigarro atrás de cigarro, tentando acalmar esta vontade de te dizer no teclado plástico e frio aquilo que o sangue me bombeia ao coração, dizer-te o que me apetece dizer quando não estamos distantes e separados pela ligação telefónica.
A íris do teu olhar não existe no meu universo. É etérea, falsa sensação de sensação transmissível, falsa ideia de proximidade, falsa pixelização do mundo… a íris do teu olhar é…
íris)
Terça-feira, Janeiro 31, 2006
22. UNAU
Nunca fui um homem das letras. Para mim, a literatura era uma coisa tão indecifrável como a teoria da relatividade ou a discussão metafísica da relatividade de todas as teorias. Para mim, ou se faziam as coisas ou deixava-se para outra pessoa fazer. Não se discutia acerca da relatividade do assento de um tijolo ou do enchimento de uma placa. Se houvesse algo para pendurar ou consertar, havia que tirar medidas, fazer cálculos breves e pragmáticos, e pôr mãos à obra. Mais nada.
Nunca fui um homem de palavras. Para mim, o conjunto de letras delimitado por uma maiúscula e um ponto final
desde cedo)
quando eram mais extensas do que três linhas seguidas, era motivo suficiente para desistir de cansar a vista. Aliás, sempre me disseram que ler faz mal aos olhos. Prezo muito os meus olhos.
Os homens de letras, quando os há, levam grande parte da sua vida a discutir o ovo e a galinha. Perdem-se em argumentos, dissertações, discussões sobre se a simbologia do número da porta de uma personagem num romance poderá ou não ter uma qualquer relação com algo escondido que o autor queria transmitir. Mas que coisa… por que esconder sentidos, duplos significados
quando não triplos)
no interior daqueles aglomerados impressos de tinta? Ora, para mim, que não sou um homem das letras, se há algo para ser dito então que o digam. Não me venham aqui com trocas e baldrocas, correndo mesmo o risco de nunca ninguém compreender o verdadeiro sentido da mensagem. Já minha avó dizia
mulher sábia, vivida)
que quem não deve não teme. E eu não devo, logo, não temo. Não preciso de me esconder numa máscara de signos e sinais, salvaguardando sempre a minha ambiguidade para que nunca me possam acusar directamente de uma qualquer afirmação que poderia suscitar qualquer tipo de reacção.
A reacção é o contraponto
naturalíssimo)
da acção. Logo, se não há reacção – mesmo que a acção esteja o mais dissimulada possível – a verdade é que não há acção. E eu não sou um homem das letras. Sou um homem de acção.
Também os há que nem sabem que são homens de letras, ou que sabem que são um pouco e gostam de se armar mais do que aquilo que verdadeiramente são. Ora bem, um homem é julgado
cá ou lá, não interessa)
pelas boas e más acções que cometeu. Se um homem das letras não comete acções, nem provoca reacções, como pode ele ser julgado? Quererá ao menos ser julgado? Ou será que eles preferem ficar horas a fio sentados numa cadeira, longe do sol que queima suavemente a pele de quem efectivamente trabalha,
porque ler não é um trabalho)
longe de tudo e de todos, absortos que estão no seu pensamento narcisista e egocêntrico? Será que essa a vida que almejam? Uma constante vira e revira-volta nas palavras que outra pessoa escreveu, contribuindo para o mundo com absolutamente 0 ao lado de 0 e exponenciado a 0.
Não sei. Sei que não sou um homem das letras. Nunca o fui. No secundário, a minha professora de português teimou comigo que eu haveria de escrever
rabiscar, na verdade)
umas palavrinhas numa folha de papel para poder dizer ao senhor director que o rapaz mais indisciplinado da turma conseguia produzir um texto livre. Como se a produção escrita fosse substancialmente mais importante do que ajudar na construção de uma casa ou a investigação científica que provavelmente
e muito certamente)
trará conhecimentos suficientes para que mais tarde se curem as mazelas dos escritores e homens das letras. Então, segundo a professora, simpática, muito bonitinha, eu deveria escrever qualquer coisa que simbolizasse a passagem do homem por este imenso deserto de significados que é a humanidade, a terra, o mundo. Queria que eu
que não sou homem das letras)
escrevesse qualquer coisa significativa, com profundidade e actualidade. Disse-lhe que ia tentar, que levaria o texto comigo no pensamento durante a tarde e que, pela noitinha, quando os meus pais já dormissem e os afazeres da lavoura estivessem já preparados para o dia seguinte, aí então eu sentar-me-ia na mesa da cozinha da minha mãe
que não tínhamos escritório)
Nunca fui um homem de palavras. Para mim, o conjunto de letras delimitado por uma maiúscula e um ponto final
desde cedo)
quando eram mais extensas do que três linhas seguidas, era motivo suficiente para desistir de cansar a vista. Aliás, sempre me disseram que ler faz mal aos olhos. Prezo muito os meus olhos.
Os homens de letras, quando os há, levam grande parte da sua vida a discutir o ovo e a galinha. Perdem-se em argumentos, dissertações, discussões sobre se a simbologia do número da porta de uma personagem num romance poderá ou não ter uma qualquer relação com algo escondido que o autor queria transmitir. Mas que coisa… por que esconder sentidos, duplos significados
quando não triplos)
no interior daqueles aglomerados impressos de tinta? Ora, para mim, que não sou um homem das letras, se há algo para ser dito então que o digam. Não me venham aqui com trocas e baldrocas, correndo mesmo o risco de nunca ninguém compreender o verdadeiro sentido da mensagem. Já minha avó dizia
mulher sábia, vivida)
que quem não deve não teme. E eu não devo, logo, não temo. Não preciso de me esconder numa máscara de signos e sinais, salvaguardando sempre a minha ambiguidade para que nunca me possam acusar directamente de uma qualquer afirmação que poderia suscitar qualquer tipo de reacção.
A reacção é o contraponto
naturalíssimo)
da acção. Logo, se não há reacção – mesmo que a acção esteja o mais dissimulada possível – a verdade é que não há acção. E eu não sou um homem das letras. Sou um homem de acção.
Também os há que nem sabem que são homens de letras, ou que sabem que são um pouco e gostam de se armar mais do que aquilo que verdadeiramente são. Ora bem, um homem é julgado
cá ou lá, não interessa)
pelas boas e más acções que cometeu. Se um homem das letras não comete acções, nem provoca reacções, como pode ele ser julgado? Quererá ao menos ser julgado? Ou será que eles preferem ficar horas a fio sentados numa cadeira, longe do sol que queima suavemente a pele de quem efectivamente trabalha,
porque ler não é um trabalho)
longe de tudo e de todos, absortos que estão no seu pensamento narcisista e egocêntrico? Será que essa a vida que almejam? Uma constante vira e revira-volta nas palavras que outra pessoa escreveu, contribuindo para o mundo com absolutamente 0 ao lado de 0 e exponenciado a 0.
Não sei. Sei que não sou um homem das letras. Nunca o fui. No secundário, a minha professora de português teimou comigo que eu haveria de escrever
rabiscar, na verdade)
umas palavrinhas numa folha de papel para poder dizer ao senhor director que o rapaz mais indisciplinado da turma conseguia produzir um texto livre. Como se a produção escrita fosse substancialmente mais importante do que ajudar na construção de uma casa ou a investigação científica que provavelmente
e muito certamente)
trará conhecimentos suficientes para que mais tarde se curem as mazelas dos escritores e homens das letras. Então, segundo a professora, simpática, muito bonitinha, eu deveria escrever qualquer coisa que simbolizasse a passagem do homem por este imenso deserto de significados que é a humanidade, a terra, o mundo. Queria que eu
que não sou homem das letras)
escrevesse qualquer coisa significativa, com profundidade e actualidade. Disse-lhe que ia tentar, que levaria o texto comigo no pensamento durante a tarde e que, pela noitinha, quando os meus pais já dormissem e os afazeres da lavoura estivessem já preparados para o dia seguinte, aí então eu sentar-me-ia na mesa da cozinha da minha mãe
que não tínhamos escritório)
e lá escreveria umas linhas.
Mas ela disse que não, que não podia ser. Que, de uma maneira ou outra, nunca soube verdadeiramente porquê, a inspiração momentânea era o mais importante, revelava por outras palavras aquilo que me ia na alma, ou no cérebro, tanto faz. Eu disse-lhe que era mais difícil. Mas ela contra-argumentou dizendo que na vida
não na escrita)
não havia nada que fosse isento de sacrifícios ou de trabalho. Que tudo na vida seria construído e conquistado à força de muito trabalho e tentativas contínuas de aperfeiçoamento. Tentei refutar, que já sabia o que precisava de saber para aprender um ofício; que não era a escrita de um texto que me faria
a mim ou a qualquer pessoa)
mais capaz ou mais inteligente.
Em vão. Tive mesmo de escrever qualquer coisa significativa e simbólica daquele tal deserto que ainda não tinha tido qualquer tipo de prova efectiva ou sentimento de real. Então escrevi:
Eu estou a entrar no deserto……………………………………………………………………………………………………………………
………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………
Mas ela disse que não, que não podia ser. Que, de uma maneira ou outra, nunca soube verdadeiramente porquê, a inspiração momentânea era o mais importante, revelava por outras palavras aquilo que me ia na alma, ou no cérebro, tanto faz. Eu disse-lhe que era mais difícil. Mas ela contra-argumentou dizendo que na vida
não na escrita)
não havia nada que fosse isento de sacrifícios ou de trabalho. Que tudo na vida seria construído e conquistado à força de muito trabalho e tentativas contínuas de aperfeiçoamento. Tentei refutar, que já sabia o que precisava de saber para aprender um ofício; que não era a escrita de um texto que me faria
a mim ou a qualquer pessoa)
mais capaz ou mais inteligente.
Em vão. Tive mesmo de escrever qualquer coisa significativa e simbólica daquele tal deserto que ainda não tinha tido qualquer tipo de prova efectiva ou sentimento de real. Então escrevi:
Eu estou a entrar no deserto……………………………………………………………………………………………………………………
………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………
………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………
…………………………………………………………………………………………………………………………………………saí do deserto.
nunca mais escrevi porra alguma.
400 g
Tens sido um bom menino? – perguntam-lhe, segurando-lhe a cabeça puxando pelos cabelos negros, obrigando-o a fitar os céus, de olhos nebulosos, crispados mas sem qualquer tipo de vida que aquela que pulsa nas suas veias. O riso dos guardas sobrepõe-se ao das suas súplicas
tenho 25 anos, meu deus)
e ao do choro miúdo que não consegue conter.
Olha, olha… - surpreende-o outro guarda – parece-me que o nosso menino está a mijar-se todo… - o riso é aglutinante, lacerante e penetrante. Tantos ante que já nem consegue lembrar-se bem de todos os passos que o trouxeram a este inferno na terra. A esta terra infernal que
passageiros com destino a Melbourne)
fica a quilómetros de nada e de lugar algum.
Por favor… - murmura ele, de cabelos arrancados à força de puxar a cabeça para trás, mostrando assim o pescoço vulnerável, macio e carnudo que dali a algumas horas tornar-se-á impenetrável, duro e ressequido, roxo pelo excesso e coagulação do sangue.
Não sabe porquê
favor dirigirem-se à sala de embarque…)
mas sabe por que razão isto lhe está a acontecer a ele e a mais ninguém – não a mim, não a ti, não a nós – e por que razão não deu ouvidos ao colega quando o advertiu da perigosidade de tal acto, e das suas improváveis consequências num mundo supostamente civilizado e evoluído como o nosso.
Pensou no dinheiro, claro está,
dão-me mil euros)
na imediata satisfação da transgressão, não nas consequências da remota hipótese de ser apanhado. Aliás, 400 g não são assim tão identificáveis nem localizáveis, ou são? 400 g. não dá para matar ninguém, pois não? Nem para ser morto, pois sim. Os polícias
faça o favor de nos acompanhar)
foram educados, muito educados. Talvez educados de mais, uma vez que o tráfego aqui, neste inverso quadrado do mundo não é sinónimo de cadeia. Muito pelo contrário. Aqui, onde a diferença de cultura e de língua não permite uma correcta percepção dos trâmites legais até à execução, os passos e as diligências de outros são sempre indefinidas
morte por enforcamento)
e surreais.
Sim, para ele, segurado que está pelos cabelos e dolorido, só neste momento, a algumas horas da efectividade da sentença, é que a verdade nua e crua se abate no pensamento. Esmaga-o debaixo da pressão de se saber cadáver adiado, e que nunca, não tão cedo nesta vida,
acreditando-se na reencarnação)
poderá ser um cadáver adiado que procria.
Com ele morre a sua linhagem, a linhagem de seus pais. Filho único, laqueadas as trompas após a concepção, sabe que aquilo que o produziu e manteve até a este final da linha não será transmitido a mais nenhum recipiente carnudo e móvel, tal como ele o deixará de ser daqui a algumas horas.
Não se arrepende dos seus pecados. Não pode. Com 25 anos não há pecados cometidos que justifiquem
o preso deve ser desinfestado e limpo)
a purificação completa da alma. Ainda há pouco tempo se confessara, aquando do baptizado da sua sobrinha. Ainda há pouco tempo confraternizara tête a tête com deus, e nem um pequeno aviso, nem uma dica lhe foi concedida. Nem um
toma cuidado em Singapura
pequeno conselho de pai. Nada. Deixou-o sozinho, à mercê do dinheiro fácil para uma família que mal se sustém a si própria. Deixou-o só, negada a possibilidade de um último abraço à família, uma última possibilidade de se despedir desta vida, desta parca e fugaz existência.
Pensou, por uns breves momentos, que se calhar era melhor as coisas assim. Morrer longe dos seus, dos conhecidos, desconhecido nas linhas dos jornais, incógnito para mim, para ti, para nós… e deixou-se levar. Deixou-se humilhar, com uma corda ao pescoço, merda e mijo derramados nas calças aquando da abertura do cadafalso.
Já sabemos… a vida de uma pessoa vale mais ou menos 400 g:
«enforcado, nguyen tuong van
25, um australiano condenado de tentar fazer passar 400g de heroína para Melbourne; em Singapura. Nguyen levantou a heroína no Cambodja e foi apanhado em trânsito no Aeroporto Changi de Singapura. Oficiais australianos tentaram opor-se à execução, sem sucesso. O governo de Singapura recusou o pedido de Nguyen de abraçar por uma última vez os membros da sua família, mas deixou que a mãe lhe segurasse a mão, e tocasse no cabelo e face antes de ter sido enforcado.
O advogado Philip Ruddock considerou a execução “um acto bárbaro”»*
*- retirado da Time Magazine Europe, 12 de Dezembro 2005
tenho 25 anos, meu deus)
e ao do choro miúdo que não consegue conter.
Olha, olha… - surpreende-o outro guarda – parece-me que o nosso menino está a mijar-se todo… - o riso é aglutinante, lacerante e penetrante. Tantos ante que já nem consegue lembrar-se bem de todos os passos que o trouxeram a este inferno na terra. A esta terra infernal que
passageiros com destino a Melbourne)
fica a quilómetros de nada e de lugar algum.
Por favor… - murmura ele, de cabelos arrancados à força de puxar a cabeça para trás, mostrando assim o pescoço vulnerável, macio e carnudo que dali a algumas horas tornar-se-á impenetrável, duro e ressequido, roxo pelo excesso e coagulação do sangue.
Não sabe porquê
favor dirigirem-se à sala de embarque…)
mas sabe por que razão isto lhe está a acontecer a ele e a mais ninguém – não a mim, não a ti, não a nós – e por que razão não deu ouvidos ao colega quando o advertiu da perigosidade de tal acto, e das suas improváveis consequências num mundo supostamente civilizado e evoluído como o nosso.
Pensou no dinheiro, claro está,
dão-me mil euros)
na imediata satisfação da transgressão, não nas consequências da remota hipótese de ser apanhado. Aliás, 400 g não são assim tão identificáveis nem localizáveis, ou são? 400 g. não dá para matar ninguém, pois não? Nem para ser morto, pois sim. Os polícias
faça o favor de nos acompanhar)
foram educados, muito educados. Talvez educados de mais, uma vez que o tráfego aqui, neste inverso quadrado do mundo não é sinónimo de cadeia. Muito pelo contrário. Aqui, onde a diferença de cultura e de língua não permite uma correcta percepção dos trâmites legais até à execução, os passos e as diligências de outros são sempre indefinidas
morte por enforcamento)
e surreais.
Sim, para ele, segurado que está pelos cabelos e dolorido, só neste momento, a algumas horas da efectividade da sentença, é que a verdade nua e crua se abate no pensamento. Esmaga-o debaixo da pressão de se saber cadáver adiado, e que nunca, não tão cedo nesta vida,
acreditando-se na reencarnação)
poderá ser um cadáver adiado que procria.
Com ele morre a sua linhagem, a linhagem de seus pais. Filho único, laqueadas as trompas após a concepção, sabe que aquilo que o produziu e manteve até a este final da linha não será transmitido a mais nenhum recipiente carnudo e móvel, tal como ele o deixará de ser daqui a algumas horas.
Não se arrepende dos seus pecados. Não pode. Com 25 anos não há pecados cometidos que justifiquem
o preso deve ser desinfestado e limpo)
a purificação completa da alma. Ainda há pouco tempo se confessara, aquando do baptizado da sua sobrinha. Ainda há pouco tempo confraternizara tête a tête com deus, e nem um pequeno aviso, nem uma dica lhe foi concedida. Nem um
toma cuidado em Singapura
pequeno conselho de pai. Nada. Deixou-o sozinho, à mercê do dinheiro fácil para uma família que mal se sustém a si própria. Deixou-o só, negada a possibilidade de um último abraço à família, uma última possibilidade de se despedir desta vida, desta parca e fugaz existência.
Pensou, por uns breves momentos, que se calhar era melhor as coisas assim. Morrer longe dos seus, dos conhecidos, desconhecido nas linhas dos jornais, incógnito para mim, para ti, para nós… e deixou-se levar. Deixou-se humilhar, com uma corda ao pescoço, merda e mijo derramados nas calças aquando da abertura do cadafalso.
Já sabemos… a vida de uma pessoa vale mais ou menos 400 g:
«enforcado, nguyen tuong van
25, um australiano condenado de tentar fazer passar 400g de heroína para Melbourne; em Singapura. Nguyen levantou a heroína no Cambodja e foi apanhado em trânsito no Aeroporto Changi de Singapura. Oficiais australianos tentaram opor-se à execução, sem sucesso. O governo de Singapura recusou o pedido de Nguyen de abraçar por uma última vez os membros da sua família, mas deixou que a mãe lhe segurasse a mão, e tocasse no cabelo e face antes de ter sido enforcado.
O advogado Philip Ruddock considerou a execução “um acto bárbaro”»*
*- retirado da Time Magazine Europe, 12 de Dezembro 2005

