Terça-feira, Janeiro 31, 2006

22. UNAU

Nunca fui um homem das letras. Para mim, a literatura era uma coisa tão indecifrável como a teoria da relatividade ou a discussão metafísica da relatividade de todas as teorias. Para mim, ou se faziam as coisas ou deixava-se para outra pessoa fazer. Não se discutia acerca da relatividade do assento de um tijolo ou do enchimento de uma placa. Se houvesse algo para pendurar ou consertar, havia que tirar medidas, fazer cálculos breves e pragmáticos, e pôr mãos à obra. Mais nada.
Nunca fui um homem de palavras. Para mim, o conjunto de letras delimitado por uma maiúscula e um ponto final

desde cedo)

quando eram mais extensas do que três linhas seguidas, era motivo suficiente para desistir de cansar a vista. Aliás, sempre me disseram que ler faz mal aos olhos. Prezo muito os meus olhos.
Os homens de letras, quando os há, levam grande parte da sua vida a discutir o ovo e a galinha. Perdem-se em argumentos, dissertações, discussões sobre se a simbologia do número da porta de uma personagem num romance poderá ou não ter uma qualquer relação com algo escondido que o autor queria transmitir. Mas que coisa… por que esconder sentidos, duplos significados

quando não triplos)

no interior daqueles aglomerados impressos de tinta? Ora, para mim, que não sou um homem das letras, se há algo para ser dito então que o digam. Não me venham aqui com trocas e baldrocas, correndo mesmo o risco de nunca ninguém compreender o verdadeiro sentido da mensagem. Já minha avó dizia

mulher sábia, vivida)

que quem não deve não teme. E eu não devo, logo, não temo. Não preciso de me esconder numa máscara de signos e sinais, salvaguardando sempre a minha ambiguidade para que nunca me possam acusar directamente de uma qualquer afirmação que poderia suscitar qualquer tipo de reacção.
A reacção é o contraponto

naturalíssimo)

da acção. Logo, se não há reacção – mesmo que a acção esteja o mais dissimulada possível – a verdade é que não há acção. E eu não sou um homem das letras. Sou um homem de acção.
Também os há que nem sabem que são homens de letras, ou que sabem que são um pouco e gostam de se armar mais do que aquilo que verdadeiramente são. Ora bem, um homem é julgado

cá ou lá, não interessa)

pelas boas e más acções que cometeu. Se um homem das letras não comete acções, nem provoca reacções, como pode ele ser julgado? Quererá ao menos ser julgado? Ou será que eles preferem ficar horas a fio sentados numa cadeira, longe do sol que queima suavemente a pele de quem efectivamente trabalha,

porque ler não é um trabalho)

longe de tudo e de todos, absortos que estão no seu pensamento narcisista e egocêntrico? Será que essa a vida que almejam? Uma constante vira e revira-volta nas palavras que outra pessoa escreveu, contribuindo para o mundo com absolutamente 0 ao lado de 0 e exponenciado a 0.
Não sei. Sei que não sou um homem das letras. Nunca o fui. No secundário, a minha professora de português teimou comigo que eu haveria de escrever

rabiscar, na verdade)

umas palavrinhas numa folha de papel para poder dizer ao senhor director que o rapaz mais indisciplinado da turma conseguia produzir um texto livre. Como se a produção escrita fosse substancialmente mais importante do que ajudar na construção de uma casa ou a investigação científica que provavelmente

e muito certamente)

trará conhecimentos suficientes para que mais tarde se curem as mazelas dos escritores e homens das letras. Então, segundo a professora, simpática, muito bonitinha, eu deveria escrever qualquer coisa que simbolizasse a passagem do homem por este imenso deserto de significados que é a humanidade, a terra, o mundo. Queria que eu

que não sou homem das letras)

escrevesse qualquer coisa significativa, com profundidade e actualidade. Disse-lhe que ia tentar, que levaria o texto comigo no pensamento durante a tarde e que, pela noitinha, quando os meus pais já dormissem e os afazeres da lavoura estivessem já preparados para o dia seguinte, aí então eu sentar-me-ia na mesa da cozinha da minha mãe

que não tínhamos escritório)
e lá escreveria umas linhas.
Mas ela disse que não, que não podia ser. Que, de uma maneira ou outra, nunca soube verdadeiramente porquê, a inspiração momentânea era o mais importante, revelava por outras palavras aquilo que me ia na alma, ou no cérebro, tanto faz. Eu disse-lhe que era mais difícil. Mas ela contra-argumentou dizendo que na vida

não na escrita)

não havia nada que fosse isento de sacrifícios ou de trabalho. Que tudo na vida seria construído e conquistado à força de muito trabalho e tentativas contínuas de aperfeiçoamento. Tentei refutar, que já sabia o que precisava de saber para aprender um ofício; que não era a escrita de um texto que me faria

a mim ou a qualquer pessoa)

mais capaz ou mais inteligente.
Em vão. Tive mesmo de escrever qualquer coisa significativa e simbólica daquele tal deserto que ainda não tinha tido qualquer tipo de prova efectiva ou sentimento de real. Então escrevi:

Eu estou a entrar no deserto……………………………………………………………………………………………………………………
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…………………………………………………………………………………………………………………………………………saí do deserto.

nunca mais escrevi porra alguma.