Domingo, Fevereiro 26, 2006

.23 VEM

Olho o chão de terra que se funde numa pasta castanha com o cuspo dos meus lábios, o qual deixo cair lentamente, ao longo de um fio de saliva de difícil identificação o início, meio e fim, distendendo-se, quase ao infinito, numa elasticidade teimosa e afecta à minha falta de paciência

são duas horas)

sobre a tua demora. O sol queima-me o pescoço há bastante tempo, sinto a pele ressequir-se ao toque suave e calorento e penso no quão bom seria percorrer o teu corpo até à espinha, lambendo sofregamente o suor da tua pele, os teus mais recônditos odores e pensamentos, tragá-los, com a fome de um recluso, a cada vez que te engolisse.
Demoras-te, já o sei. E o calor aperta devagarinho, fazendo-me também suado, cansado e trôpego das cervejas

são duas e dez)

que bebi enquanto aguardava no cais por ti. Fecho os olhos por uns segundos. Ao abri-los, a cor do mar é da tua cor, da cor da tua pele, ofuscante, louca sede de poder, de sensação carnal ao toque, de respiração ofegante e incontrolada, arfando, cansando as pálpebras de tanto te consumir.
Tardas. Já no cais não há ninguém senão eu, sentado sobre duas malas de cabedal oferecidas por meu pai, algures quando o meu pai era alguém e eu seu filho, e já gastas das poucas viagens feitas e poucas as vezes desfeitas ao chegar a casa

são duas e vinte)

depois de uma longa jornada para fora de mim. O sol continua a queimar-me e eu levo a mão direita ao pescoço, numa tentativa de o tapar com a peneira dos dedos, embora sem efeito. O calor queima, o calor consome-me e derrete-me, como cubo de chocolate ao calor, pastoso, lânguido e sem acção ou valor. Estou só no cais, sozinho e só. O café apenas abre durante as horas de partidas ou chegadas,

são duas e meia)

mantendo-se depois inerte, fechado sobre si mesmo, sobre as suas bebidas, num egoísmo de alcoólico que não partilha, que se inebria quando tudo está calmo, quando as crianças estão deitadas e as mulheres a ver novelas, quando ninguém parte nem chega, neste cais de ninguém a não ser eu… só.
Eu, que nem sou de cá, nem nunca te vi,

são duas e quarenta)

senão em retalhos de uma memória que ainda me custa a identificar como sendo verdadeiramente minha, ou então breves instantes inscritos numa qualquer indefinição rememorativa, onde os cheiros se confundem com os sabores, e a verdade da tua existência parte muito mais da minha vontade do que da tua disponibilidade……………
E, não obstante, continuo aqui… no cais

são duas e cinquenta)

aguardo a tua chegada a qualquer momento, descendo ofegante a rua que será a minha salvação, de mochila às costas, o cabelo desgrenhado pelo vento e pela corrida, e então, colocando a mochila no chão – como sempre o fazes na minha ideia – e atirando o casaco que trazias à cintura para o caso de chover, dizes

- estás pronto?

que não, que não está nada como planeado, nada como idealizámos nas nossas mentes jovens e ávidas de aventura, que os teus pais

- vamos?

não acham boa ideia viajares comigo, nem vires buscar-me ao cais, nem que a vaca tussa, mas que sozinha, sozinha não vais a lado nenhum, que isto não são

são duas e cinquenta e cinco)

- vamos? estás pronto?

isto não são horas… isto já começa a ficar tarde, e o sol continua a queimar as minhas costas, agora encostadas a uma qualquer parede com sombra, fugindo às queimaduras, fugindo à humilhação, à descrença, ao vazio, tentando, tentando a todo o custo dobrar-me sobre mim mesmo, fechado, num espaço circunscrito, (in)descrito e prescrito, tentado a todo o custo voltar atrás, replanear a viagem, os contactos

são duas e cinquenta e oito)

restabelecer horários, talvez outro cais, outra espera, outro barco, não sei. Mas fazer com que esta espera não seja indefinida, permanente, eterna, que eu não fique para sempre preso a este sol e a estas duas malas, a este cais do fim do mundo… talvez, nem sei, talvez não me caiba a mim redefinir o presente, ou o passado que teima em escapulir-me por entre os dedos que tentam tapar o sol,

são duas e cinquenta e nove)

que teima em queimar-me o pescoço, que teima em vergar-se sobre o peso do calor, e os meus lábios, que teimam em cuspir a saliva que já não te pertence há muito, que nunca te pertencerá, formando poças de cuspo nesta terra batida do cais de espera, quando tudo o que faço é esperar por ti, por nós, por aquilo que foi e que nunca voltará a ser…. mas, não sei, decerto… o sol não tem culpa, tenho eu, que nunca te telefonei a avisar, nunca me aceitei como necessário à tua vinda, à tua chegada

- estás pronto? vens?

e assumi sempre que o futuro era isto… eu e tu, falando sós na imensidão de um cais vazio, à espera de um barco que nos levasse para longe… para muito longe, para onde o eu se confundisse permanentemente com o tu e o tu fosse um e só prolongamento do eu que espera

são duas horas)

sozinho neste cais…
por ti…
vem.

1 Comments:

Blogger leanordgilbert99907673 said...

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