Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

íRIS

A íris do teu olhar é falsa, distorcida e pixelizada no ecrã do computador para o qual anseio voltar, dia após dia, buscando um alento de sensibilidade e que teimo em encontrar quando só me encontro contigo

só)

e sinto o meu olhar reflectir a luz brilhante do quadro plasmático que se encontra à minha frente. Queria conseguir percorrer tambor, cabo de cobre-banda-larga-em-fio-de-telefone, debaixo do chão, no alto dos postes, percorrer, percorrer esta distância

pequena contudo)

que nos separa – noite após noite – e voltar a percorrer fio de cobre-banda-larga-em-fio-de-telefone até ao lado de lá. Teu lado de cá, meu lado de lá. E finalmente fitar-te. Sentir que a luz que os meus olhos reflectem não é a luz pixelizada de um olhar difuso e indistinto, imperfeito e computorizado, mas a imanência da tua alegria que se esparja ao me veres cara-a-cara com o teu olhar.
A íris do teu olhar não me reflecte. E é impossível esta ideia de miraculosamente me tornar conjunto de dados

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que facilmente transpõem através do messenger a ligação que nos mantém vivos, e aparecer do lado de lá, como fotografia que se envia, como música que se partilha, como qualquer coisa que o computador deixa passar.
Mas o computador não deixa passar corpos, não deixar passar vida. Apenas séries de dados

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reconhecíveis e aceitáveis de transmutar. O corpo não é transmutável, o corpo mantém-se correcta e directamente no lugar onde pertence, no lugar frio de estar sentado num quarto a olhar um ecrã plasmático ou TFTizado e sente esta ânsia de poder esticar a mão e segurar a tua face, sentir a tua pele, sentir os teus lábios, sentir o macio do teu olhar.
A íris do teu olhar é a tua essência, o teu nome, aquilo por que te chamam

no fundo da noite)

quando o sinal de offline está desligado, dando lugar à alegria de te saber presente, visível, do outro lado aguardando o meu/teu contacto. Acendo cigarro atrás de cigarro, tentando acalmar esta vontade de te dizer no teclado plástico e frio aquilo que o sangue me bombeia ao coração, dizer-te o que me apetece dizer quando não estamos distantes e separados pela ligação telefónica.
A íris do teu olhar não existe no meu universo. É etérea, falsa sensação de sensação transmissível, falsa ideia de proximidade, falsa pixelização do mundo… a íris do teu olhar é…

íris)