.25 ZEN
É sempre no silêncio de sentir-me sozinho que o medo me invade.
Quando tudo está dormindo e já nada me vale, quando a noite cobre a redoma do céu, escura e misteriosa, pressinto que sinto um vulto algures no interior desta grande casa fria, branca, pálida de solidão. Aqui, algures, há um estado de alma que de mim não partiu, não se gerou,
gerado, não criado)
mas em mim encontrou onde se aninhar.
E vagueia, algures…
Sinto enterrar-me na moleza deste chão flutuante de madeira, crispado, opaco mas transparente ao vulto, a essa presença que não consigo identificar, a esse crescendo de medo que me invade de cada vez que estou sozinho,
sozinho, não só)
de cada vez que sinto esta vontade imensa de olhar por sobre o meu ombro direito. Não sobre o esquerdo, que a articulação das minhas vértebras impede-me vislumbrar seja o que for que se movimente atrás de mim.
E os meus passos vão-se progressivamente enterrando na madeira, até ficarem cobertos, até os tornozelos se sentirem apertados,
não apartados, apertados)
e até os joelhos, duros na sua articulação reumática, se sentirem imobilizados.
E então é neste silêncio, onde já nada me vale, que sinto um peso sobre o meu corpo vergado: um peso deveras leve, etéreo, cuja massa me suga, me imobiliza continuamente, calmamente, como se todo o tempo do mundo
não o meu, o do mundo)
estivesse ao seu dispor e nada o pudesse assustar, desviar, mudar de sentido o sentido da sua orientação horizontal. De cima para baixo, sinto o vulto enterrar-me cada vez mais neste chão de madeira.
Tento gritar. Vislumbro ao longe as escadas, o corrimão de madeira, talvez segurar-me nele e sair deste abismo.
Abro a boca mas o som perde-se algures por entre as veias dos meus pulmões, o ar dissipa-se, em osmose somática, em osmose celular com o dióxido de carbono, e evapora-se por entre os meus poros esmagado pelo vulto.
O vulto, meu deus,
meu, deus, não teu)
o vulto volta rodando três vezes. E eu tremo. Tremo de medo e de imobilidade, de coragem e de improbabilidade face à diferença de força, de destreza, eu que estou imóvel, de boca aberta tentando gritar…
Fecho os olhos e estou de novo na entrada da casa. Esta casa branca, fria, pálida, grande vazia como a ajuda que nunca chega. A porta da entrada está trancada.
Verifico a chave na fechadura
é dura e fecha, a chave)
e rodo-a diversas vezes até não mais a conseguir rodar. Olho sobre o meu ombro direito, prestes a desfazer o trinco e voltar a sair de casa.
Nada.
Silêncio.
E é sempre neste silêncio de sentir-me sozinho que o medo me invade. É sempre ao entrar neste átrio,
eco eco eco eco)
quando o manto da noite cobre já completamente a redoma do céu, que o medo me invade.
Atravesso o átrio – eco eco – os meus passos nas paredes frias e brancas, e aproximo-me das escadas que dão ao andar de cima. À minha volta fito os quadros, e os quadros fitam-me a mim, sorrindo uns, estáticos outros, com os seus olhos falsos que me seguem para onde vá, para onde vá o vulto.
Subo as escadas de madeira, seguro ao corrimão que as acompanha, e viro à direita. O vulto… sinto sempre um vulto que me segue quando eu sigo calmamente no corredor desta casa grande
corre o sangue e dói-me as veias)
e tento a todo o custo chegar à cama. Olho à minha esquerda, palpo as paredes do corredor, sinto os pés enterrarem-se de novo na madeira, rapidamente tento alcançar a janela. O céu está escuro, coberto, o mistério da noite por sobre as nossas cabeças
a minha, a do vulto)
relembram-nos de que não estamos sós. Nunca estivemos sós. E são os quadros no átrio que me seguem quando sigo por este corredor, e são as vozes dos antepassados que me sussurram palavras de outrora, de outras eras, de outros tempos, cadenciados na sua monotonia de mortos, de velhos
de outros tempos)
de caquécticas imagens de decrepitude.
Fecho a janela…. sinto-me sozinho, olho à minha volta, sinto os pés enterrarem-se na madeira do corredor. Corredor, eu, tentando correr para chegar ao meu quarto, mas a madeira é mais rápida, mais ágil, entrelaça-se nos meus tornozelos, subindo devagar até aos meus joelhos reumáticos.
Tento gritar, os meus pulmões não me respondem… adormeceram, a dor no peito, a dor no peitoril da janela onde a minha mão esquerda pousa, tentando
silêncio)
recuperar o fôlego, o ânimo, a vontade de continuar até ao quarto para me deitar e fechar os olhos, respirar fundo, e abrir os olhos e estar de volta na entrada desta casa grande, branca, fria, fitando estupidamente a porta de entrada, a chave no trinco, rodada três vezes.
Três vezes confirmada.
Quando tudo está dormindo e já nada me vale, quando a noite cobre a redoma do céu, escura e misteriosa, pressinto que sinto um vulto algures no interior desta grande casa fria, branca, pálida de solidão. Aqui, algures, há um estado de alma que de mim não partiu, não se gerou,
gerado, não criado)
mas em mim encontrou onde se aninhar.
E vagueia, algures…
Sinto enterrar-me na moleza deste chão flutuante de madeira, crispado, opaco mas transparente ao vulto, a essa presença que não consigo identificar, a esse crescendo de medo que me invade de cada vez que estou sozinho,
sozinho, não só)
de cada vez que sinto esta vontade imensa de olhar por sobre o meu ombro direito. Não sobre o esquerdo, que a articulação das minhas vértebras impede-me vislumbrar seja o que for que se movimente atrás de mim.
E os meus passos vão-se progressivamente enterrando na madeira, até ficarem cobertos, até os tornozelos se sentirem apertados,
não apartados, apertados)
e até os joelhos, duros na sua articulação reumática, se sentirem imobilizados.
E então é neste silêncio, onde já nada me vale, que sinto um peso sobre o meu corpo vergado: um peso deveras leve, etéreo, cuja massa me suga, me imobiliza continuamente, calmamente, como se todo o tempo do mundo
não o meu, o do mundo)
estivesse ao seu dispor e nada o pudesse assustar, desviar, mudar de sentido o sentido da sua orientação horizontal. De cima para baixo, sinto o vulto enterrar-me cada vez mais neste chão de madeira.
Tento gritar. Vislumbro ao longe as escadas, o corrimão de madeira, talvez segurar-me nele e sair deste abismo.
Abro a boca mas o som perde-se algures por entre as veias dos meus pulmões, o ar dissipa-se, em osmose somática, em osmose celular com o dióxido de carbono, e evapora-se por entre os meus poros esmagado pelo vulto.
O vulto, meu deus,
meu, deus, não teu)
o vulto volta rodando três vezes. E eu tremo. Tremo de medo e de imobilidade, de coragem e de improbabilidade face à diferença de força, de destreza, eu que estou imóvel, de boca aberta tentando gritar…
Fecho os olhos e estou de novo na entrada da casa. Esta casa branca, fria, pálida, grande vazia como a ajuda que nunca chega. A porta da entrada está trancada.
Verifico a chave na fechadura
é dura e fecha, a chave)
e rodo-a diversas vezes até não mais a conseguir rodar. Olho sobre o meu ombro direito, prestes a desfazer o trinco e voltar a sair de casa.
Nada.
Silêncio.
E é sempre neste silêncio de sentir-me sozinho que o medo me invade. É sempre ao entrar neste átrio,
eco eco eco eco)
quando o manto da noite cobre já completamente a redoma do céu, que o medo me invade.
Atravesso o átrio – eco eco – os meus passos nas paredes frias e brancas, e aproximo-me das escadas que dão ao andar de cima. À minha volta fito os quadros, e os quadros fitam-me a mim, sorrindo uns, estáticos outros, com os seus olhos falsos que me seguem para onde vá, para onde vá o vulto.
Subo as escadas de madeira, seguro ao corrimão que as acompanha, e viro à direita. O vulto… sinto sempre um vulto que me segue quando eu sigo calmamente no corredor desta casa grande
corre o sangue e dói-me as veias)
e tento a todo o custo chegar à cama. Olho à minha esquerda, palpo as paredes do corredor, sinto os pés enterrarem-se de novo na madeira, rapidamente tento alcançar a janela. O céu está escuro, coberto, o mistério da noite por sobre as nossas cabeças
a minha, a do vulto)
relembram-nos de que não estamos sós. Nunca estivemos sós. E são os quadros no átrio que me seguem quando sigo por este corredor, e são as vozes dos antepassados que me sussurram palavras de outrora, de outras eras, de outros tempos, cadenciados na sua monotonia de mortos, de velhos
de outros tempos)
de caquécticas imagens de decrepitude.
Fecho a janela…. sinto-me sozinho, olho à minha volta, sinto os pés enterrarem-se na madeira do corredor. Corredor, eu, tentando correr para chegar ao meu quarto, mas a madeira é mais rápida, mais ágil, entrelaça-se nos meus tornozelos, subindo devagar até aos meus joelhos reumáticos.
Tento gritar, os meus pulmões não me respondem… adormeceram, a dor no peito, a dor no peitoril da janela onde a minha mão esquerda pousa, tentando
silêncio)
recuperar o fôlego, o ânimo, a vontade de continuar até ao quarto para me deitar e fechar os olhos, respirar fundo, e abrir os olhos e estar de volta na entrada desta casa grande, branca, fria, fitando estupidamente a porta de entrada, a chave no trinco, rodada três vezes.
Três vezes confirmada.

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