Sexta-feira, Agosto 25, 2006

a. (amanhã)

Olha, não é nada de especial o que te quero dizer, a sério, mas acho que, uma vez que te foste embora, não seria nada má ideia dizer-te como é que as coisas ficaram desde que saíste. Em primeiro lugar, bem… nem sei se deveria enumerar tudo aquilo que tenho para te dizer, assim, como se fosse uma lista do supermercado, daquelas listas que nós fazemos quando pensamos, erradamente,

André)

que ir ao supermercado, a um mero supermercado que, na maior parte das vezes, fica situado a menos de um quilómetro de nossa casa, é uma coisa banal. Daquelas coisas sem importância que têm de ser feitas, como sair de casa para trabalhar, quer chova quer faça sol, com a mesma cara que tínhamos no dia anterior ao nos deitarmos, uma cara cansada, gasta pelo tempo, sem ânimo de vida, sem nada que diga

amanhã, talvez)

que a vida não é só isto. Uma cara hipotecada e obesa, de tantos jantares e convívios com os amigos que não conseguimos adiar, porque socialmente as coisas sempre foram feitas desta maneira, desta convivência febril, interesseira e motivada. Uma cara

amanhã, talvez será diferente)

que víamos nos retratos de família dos nossos avós, de cara hirta, maquiada pela mão do fotógrafo, tratadas no laboratório de forma monocromática, desajeitada e falsa. Aquele tipo de cara que antigamente nos faria olhar para o lado em desgosto, em tristeza e promessa velada entre dentes que, se tudo corresse bem, nós não seríamos assim, nós não teríamos aquelas caras poeirentas e cansadas, que nós seríamos alegres, contentes, felizes com o que a nossa vida nos tinha proporcionado

amanhã, quem sabe?)

caso tivéssemos ou não trabalhado arduamente para isso.
Mas as coisas, André, não são assim. Não, a vida não se pode resumir a isso, a um empacotar de caixotes vazios de existência, esperando ostentar não o conteúdo de um, mas a massa e o volume de muitos. A vida pode ser, e tu sabes disso, um contínuo despertar de consciência, de realidade visível e palpável. A vida pode ser um simples pôr-do-sol, multicolor, espelhando na calma do azul do mar uma imensidão de possibilidades, de caminhos a percorrer

amanhã, sim)

com esta simples e clara consciência, presente na parte de trás do cortinado do nosso cérebro. Lá, onde as consciências estão, lá bem no fundo, no poço de infinita alma que somos nós, a que convencionámos chamar de coração, ora pelo aperto ora pela alegria, lá nesse fundo está esta consciência, esta simples e clara consciência de que o mundo não se repete, a vida não tem replay nem possibilidades de retirarmos o jogo e amanhã voltarmos a jogar, jogando sempre do último sítio em que nos encontrávamos com a máxima energia, a melhor pontuação e o máximo de pontos ganhos nos percursos laterais

pós-laborais)

em que nos dedicámos a procurar tesouros escondidos, pontuações extra para aqueles jogadores que sabem, lá no fundo, que a beleza do jogo não está em chegar com uma boa pontuação ao fim, mas sim em explorar todos os recantos, todas as oportunidades que a vida durante aquele jogo nos dá, para que possamos verdadeiramente triunfar. Sermos verdadeira e conscientemente chamados de triunfantes, de vencedores.
Mas não, André. A vida não tem esta possibilidade. A vida é um jogo duro, um jogo no qual somos colocados, assim, do nada, e ainda nem sabemos controlar bem o jogador e já estamos em plena batalha. E tentamos

a sério que tentamos)

aprender as regras do jogo à medida que o vamos jogando e, em certos níveis, uns mais fáceis, outros mais difíceis, conseguirmos tirar um pouco de tempo para, antes de passarmos ao nível seguinte, explorarmos um pouco o campo e procurarmos aqueles tais tesouros escondidos, aquelas pontuações extra para os verdadeiros destemidos, para os conscientes das regras do jogo, para aqueles que verdadeiramente têm vontade de aprender as regras e ao mesmo tempo explorar os recantos do jogo.

amanhã, quem sabe?)

E ao tentarmos, sabemos que verdadeiramente não podemos nunca ter perdido o jogo. Sabemos que, em pior nível de energia que nos encontremos, com a pior pontuação possível até então, nas piores adversidades do jogo, se perdermos, se abandonarmos o jogo antes de chegarmos ao fim do trajecto, pelo menos sabemos que jogámos pelas regras do jogo. Que isso nunca ninguém nos pode tirar, o termos jogado apaixonadamente o jogo, com todos os seus defeitos, com todas as suas armadilhas, com todos os seus falsos tesouros e mensagens enganosas. Mas na verdade

André)

na verdade é que tudo se resume a isto: tu foste um excelente jogador. Terias a máxima pontuação no fim, sabes disso, não sabes?
Olha, não sei se era exactamente isto o que tinha pensado em escrever-te quando soube que te tinhas ido embora. Não sei, sinto que havia muito mais para te escrever. Sinto que todas as folhas do mundo seriam poucas para tudo aquilo que te queria dizer, mas infinitamente grandes para o nada que tenho para te dizer. Não sei, também acho que lhe falta o tom, que há algo entre o que tenho para te dizer e os meios de que te disponho que impede uma perfeita comunicação.
Não sei. Mas amanhã digo-te tudo quando voltares. Digo-te tudo melhor, quando este eterno hoje, no qual jogo como já jogaste, terminar. Seja antes ou quando chegar ao fim. Entretanto, vou tentando encontrar alguma pontuação extra para ti.
Até amanhã.

1 Comments:

Blogger Miguel Linhares said...

Sentimentos perfeitamente descritos. Embora não o conhecesse, depois de ler estes rabiscos, fico com a certeza que era um grande amigo dos amigos. E um amigo que perdeu no mesmo jogo que jogas.
Life suck´s, then you die

5:05 PM  

Enviar um comentário

<< Home