Quinta-feira, Setembro 07, 2006

b. (busca)

Sempre que fecho os olhos, tentando apagar da minha íris a crueza destas paredes brancas que me circundam, faço um esforço por te imaginar de novo sentado ao meu lado, naquela velha paragem de autocarro, repleta de desenhos obscenos de corpos e genitais toscos e deformados, onde tantas vezes nos sentámos esperando por nada... por ninguém. Aguardávamos apenas aquela espécie de consolo

efémero)

de nos sabermos acompanhados na nossa fútil espera, de sabermos que não estávamos sós. Nenhum de nós. E aguardávamos calmamente o passar das horas, com o passar do vento, levantando do chão a cinza dos cigarros que acendíamos,

um atrás do outro)

enquanto pensávamos em como seria o mundo quando nos dispuséssemos a viver nele, a agir-lhe no funcionamento segundo as nossas próprias leis intrínsecas, assimilando ou não todas as suas complexas interacções.
Aí, conjecturávamos silenciosamente sobre como as coisas seriam fáceis, altamente indefinidas, contudo

como todas as adversativas)

correctas e certas nos espaços que lhes eram destinados à partida desde a sua inicial existência e programação funcional.
Naquela altura, na altura da paragem do autocarro, quando tu colocavas a medo a tua mão forte sobre as minhas saias, as estrelas pairavam sobre as nossas cabeças numa cadência de emissão televisiva

dos concursos e telejornais)

onde nos víamos projectados e estranhamente familiarizados com a popularidade de que gozávamos naquele nosso pequeno mundo inventado e altamente fantasiado.
E daí puxávamos mais um cigarro. Cuspíamos no chão oleoso, esfregando com os pés o cuspo do cigarro anterior, e ficávamos assim sentados durante muito tempo, imóveis, olhando sem esperança as nossas projecções televisivas que, no futuro, talvez tentassem chegar a algum lado. Também nós esperávamos talvez a chegada de um qualquer autocarro, de destino incerto e condutor de chapéu azul, para que nos levasse para longe, para muito longe. Para onde as estrelas eram simplesmente estrelas, e o chão não se vestisse de cimento.
Sonhávamos,

pass me a cigarette; I think there’s one in my raincoat)

com a melodia das canções que nos enchiam os ouvidos de sonhos, enquanto o autocarro descia a quarta ou quinta avenida, já não me consigo recordar ao certo qual seria, para nos deixar finalmente na estação da baixa de Nova Iorque.
Seguíamos, sempre de cigarro na boca, pelas ruas da cidade iluminada, sonhando com anjos pedintes e com fortuna fácil.
Beijávamos celebridades e encontrávamos velhos amigos

ricos e lindos)

no Plaza e no Ritz. Dançávamos ao som dos mais recentes djs, bebericando caros cocktails e sorrindo a sorrisos (des)conhecidos. Tagarelávamos sobre as mais recentes fofocas e os mais importantes acordos e contratos de trabalhos televisivos e muito bem pagos. Éramos tão

beautiful people)

aquilo que nunca verdadeiramente fomos. Éramos únicos, imprescindíveis, e certos de que o mundo esperava por nós tal como nós o aguardávamos – de cigarro na boca e sorriso de criança.
Quando fecho os olhos, agora, sentada nesta cadeira de rodas e rodeada por estas cruas paredes brancas, já não te consigo imaginar sentado ao meu lado, cuspindo sobre o meu cuspo no chão oleoso, vendo as cinzas dos cigarros levantarem e partirem ao sabor do vento, cantarolando lânguidas canções poéticas,

we smoked the last one an hour ago…)

enquanto colocavas a medo a tua mão grossa sobre as minhas saias, sentindo o calor das minhas pernas e o palpitar da indecisão.
Agora, sempre que acendo um cigarro

à sucapa das enfermeiras)

entre as salas de quimioterapia, com o cuidado de lançar o fumo para o frio da noite e não ser apanhada pelo cheiro a tabaco, já não me consigo imaginar sentada ao teu lado Não me consigo imaginar em nenhuma paragem de autocarro, ansiando a chegada de alguém que me leve para muito longe.
Não quero ir para muito longe, já não quero.
Agora, vestindo esta bata branca que deixa entrar o frio pelas costuras ao longo do meu corpo macerado

velho)

e flácido pelos anos de espera sentada, agora, o tempo não é de busca nem de espera. É um tempo de estar. De simplesmente estar, aqui, sentada nesta cadeira de rodas como outrora na paragem a teu lado, cuspindo para o chão o catarro das sessões, e aguardando calma e pacientemente que chegue a hora de me levantar, cansada que estou de esperar, para finalmente sair deste quarto branco e frio, de bata branca no braço e

não de cadeira de rodas)

com um certo brilho indefinido de esperança de te voltar a ver, de voltar a sentir o teu cuspo em cima do meu, de te saber ao meu lado, como sempre estiveste, afagando-me calmamente o coração sempre que pousavas a tua mão grossa em cima das minhas saias.