Sábado, Setembro 30, 2006

verdadeiros metaleiros

O verdadeiro metaleiro quando nasce não faz a mais pálida ideia de que é um metaleiro. Começa por ser um rapaz igual aos outros: até aos seis anos não é autónomo, faz chichi nas cuecas, tem medo do escuro, não gosta de estar sozinho, briga com as raparigas e adora andar perto dos rapazes para poder brincar aos polícias e aos ladrões, aos cowboys e aos índios, por vezes até aos médicos e às enfermeiras.
Durante a escola primária, o metaleiro é um rapaz normal, parecido com os restantes rapazes da escola. No entanto, algo o distingue. Ora a forma de falar, ora a maneira de andar, os jeitos afeminados, o interesse pela música ou por outras formas de estar na vida que não as normalmente aceites pelos restantes rapazes. Ou então é marrão. Um grande marrãozinho que adora estudar e fazer os papás felizes porque o filho é muito muito esperto, embora não sociável, é muito inteligente e tira boas notas na escola primária, no 2º ciclo e, por vezes, até ao final do 3º ciclo.
No entanto, o despertar para a “metalicisse” ocorre por volta do oitavo ano de escolaridade. Quando os restantes alunos estão a passar de pintainho para galo, o metaleiro está ainda a pensar se aquilo que tem pendurado entre as pernas serve para fazer desenhos na areia ou para quê? A partir do oitavo ano, normalmente, as coisas começam a ficar feias para o típico metaleiro.
Em primeiro lugar, não consegue arranjar namorada. Começa então a perceber que algo de errado nele. Há algo – o acne, a roupa que os pais lhe vestem, a maneira como ele fala com as outras raparigas, o andar, qualquer coisa – que o impede de iniciar ou tentar iniciar uma vida de namoro ou sexo profícua ou, pelo menos, minimamente activa.
Em segundo lugar, os amigos, pelas mais diversas razões que ele não consegue identificar, de alguma maneira sobrenatural, conseguem arranjar sempre alguma rapariga com quem passar o tempo. E relegam-no para segundo plano. Ele tenta perceber o que se passa, mas há algo que o impede de ver a realidade e perceber aquilo que lhe falta para poder singrar no universo melindroso dos arranjos amorosos.
E a vida dele segue como dantes – sozinho, com boas notas, mas sem grandes amigos nem namorada que se vislumbre. É então que algo o atinge. Pode ser das mais variadas formas, mas o resultado é sempre o mesmo, e a conclusão a que o metaleiro chega é também a mesma: há gajos que ouvem música esquisita mas que, por obra ora da roupa preta que usam, ora pelo paleio, ou pelas letras agressivas das canções, conseguem sempre… mas sempre sempre sempre… arranjar uma namorada. Mas não são umas namoradas quaisquer… são namoradas podres de boas e que não têm vontade de serem “namoradas para casar”, apenas para curtir.
Normalmente as namoradas dos gajos que ouvem músicas esquisitas e violentas, obscuras, de que ninguém nunca ouviu falar, são as gajas mais jeitosas do liceu. Ou então, se não o são, tornar-se-ão em brevíssimos períodos lectivos. Habitualmente do final do terceiro período do oitavo ano para o primeiro período do nono.
E é aqui que a vida do metaleiro verdadeiramente muda: começa a procurar músicas dos “heavy metal” ou da banda chamada “death metal” e tudo o que tenha que ver com o desconhecido, o violento, a repulsa da normalidade, do hábito. Começam a deixar crescer o cabelo (normalmente), ou ganham a coragem suficiente para fazerem um piercing muito marado e muito à frente dos outros. Passam a vestir de preto, inteiramente de preto, e, mais recentemente, passam a sacar todo o tipo de música pesada que conseguem sacar da net.
E as raparigas começam a surgir. Os anos vão passando, e a sua reputação de gajos duros, entendidos na música pesada, de preto, com piercings, cabelos grandes e tatuagens, vai finalmente crescendo. Começam a lamentar-se imenso do mundo, da sociedade, das pessoas, que ninguém os compreende, que são anjos caídos de um outro paraíso, que a dor faz parte da sua vida, que gostariam de beber sangue humano, que fizeram pactos de sangue com alguém, que leram o livro de são sipriano, muitas vezes sem saberem quem foi Anton La Vey, que os pais não os compreendem, os professores não os compreendem, ninguém os compreende… nem as namoradas, que tentam desesperadamente fazer qualquer coisa por aquela alma atormentada e desnorteada.
Mais tarde, a vida continua, e eles vão-se mantendo no mesmo sítio, fazendo as mesmas coisas, bebendo nos mesmos cafés, com a mesma cara carrancuda, com as mesmas roupas escuras, com a mesma atitude anti-social com que começaram. Embora sintam bem lá no fundo que a sua vida não está a ir a lado nenhum, continuam a lamentar-se. Mas, normalmente, o verdadeiro metaleiro quando chega a esta altura, tornou-se um verdadeiro entendido na matéria de metalicisse e de música metal. Já não é qualquer coisa que o satisfaz, não é qualquer música, não é qualquer banda, não é o que toda a gente ouve. Habitualmente, o metaleiro quando chega a este estádio, refugia-se, embora paradoxalmente, no exacto sítio de onde tentou sair em primeiro lugar: a solidão.
Nesta altura, o metaleiro não faz parte de uma qualquer banda de garagem que aspira tornar-se uma grande banda de metal. Não, o metaleiro já evoluiu muito, já não vai para a frente do público, no moshpit, abanar a cabeça e fazer sinais ridículos de cornos (mesmo que não os tenha) às bandas que desfilam no palco. Não, nesta altura o metaleiro assiste aos concertos junto à cabine de som, vestido sempre de preto, com os braços cruzados, em atitude contemplativa, acenando de vez em quando a cabeça a um ou outro acorde original mas, no cômputo geral, mostra-se insatisfeito, entediado, farto do idêntico em toda a parte.
Tudo é a mesma merda: as bandas são uma merda, a sociedade é uma merda, as pessoas são falsas e hipócritas, o mundo está perverso, deus não existe, nada existe a não ser o metaleiro e a sua metalicisse. Nada mais está para provar o que quer que seja. A ideia de deus é negada à mais extrema consequência: risos em funerais, desaprovações de choros, alegadas tentativas de suicídio que nunca chegam a lado nenhum (pena), namoros acabados, recomeçados, acabados e finalmente recomeçados – mas com raparigas dez anos mais novas do que ele. Também elas fascinadas, como ele, com a pose negativista, a atitude de desprezo, de arrogância, de conhecimento, de anti-tudo-o-que-não-é-metal.
Passam a detestar a norma musical dentro dos metaleiros. Quem ouve músicas de bandas conhecidas é automaticamente banido do círculo pseudo-intelectual em que o metaleiro está inserido ou, nas restantes hipóteses, criou para se inserir a si próprio. Só as músicas que eles ouvem – eles, e uma pequeníssima minoria – são dignas de se ouvir. Só se alguém conhecer aquela segunda versão do lado b de um single que nunca foi editado em lado algum, e que só uma centena de pessoas e ele é que conhecem, é que poderá, talvez, e aqui residem muitas reticências, só assim, talvez é que esse alguém poderá aspirar a fazer parte desse círculo restritíssimo.
A vida entretanto passa. A música muda, os tempos mudam, as pessoas mudam, as raparigas facilmente impressionáveis tornam-se objectos proibidos para os não-pedófilos, e tudo chega ao mesmo: a vida é nada, nada é nada, deus é nada. Tudo é um grande, negro e vazio NADA.
Então, normalmente, o metaleiro, nos últimos momentos da sua fúnebre e entediante vida, chega a uma conclusão. Não interessa qual. Mas consegue percebê-la. E então, num último acto de desespero, de refúgio mental e religioso, o metaleiro tenta encontrar algum conforto na figura que sempre desprezou, como o filho pródigo voltando a casa: olha para o céu negro da noite tentando encontrar uma resposta, um qualquer tipo de justificação, de entendimento. Mas apenas consegue descortinar o negro da roupa que usou sempre ao longo da sua vida.
E morre amargurado, sem perceber porque é que nunca evoluiu.

6 Comments:

Blogger Miguel Linhares said...

Ora aqui está um artigo de opinião polémico...
Para começar, acho que escreve-se São Cipriano e não Sipriano, como fizeste. Depois, embora generalizes muito o conceito de metaleiro, acabas por sublinhar aspectos que são, de todo, verdade. Aliás, não sabendo porque escreveste isto e baseado em quê, ou quem, quase que acabaria por tomar tudo isto como o retrato - mais ou menos fiel - de uma pessoa que ambos conhecemos e que deambula pela nossa cidade...
De qualquer maneira, esta generalização que ofereces ao teu artigo acaba por ofender um pouco aqueles que no fundo vêem no metal algo de interessante e de positivo, pois nem todos os metaleiros - mesmo sendo "verdadeiros" - não são anti sociais, não leram o livro de São Cipriano, não querem beber sangue humano e/ou de animais e não estão resumidos unica e exclusivamente a este género musical. Digo isto porque, mesmo sendo ainda um adepto do metal, já não me considero como metaleiro, mas já o fui. Figurativamente, pois já levei certos conceitos mais a sério, como a roupa, a imagem, a devoção a certas bandas...Se não os levo actualmente, saberás, certamente, porque não o faço. No entanto, da mesma maneira que desprezo "verdadeiros" metaleiros como o Glen Benton (vocalista dos Deicide) que são basicamente aquilo que descreveste e ainda algo mais de aberrante, admiro outros "verdadeiros" metaleiros, como o Steve Harris (baixista dos Iron Maiden) que são exatamente o contrário do que descreves...tirando alguns "vicíos" comuns a quase todos, como a roupa preta, os piercings, o cabelo comprido...
No fundo prefiro não continuar este comentário, que tem muito mais por onde se alongar, até que tu próprio o comentes. É porque, pela primeira vez, descordo em mais de 50% do que escreveste. E estava a ver que isso não acontecia! LOL

5:56 PM  
Blogger nihildom2004 said...

Muito bem, camarada heheheh...

Tens razão, o Sipriano saiu-me mal. Foi uma gralha de escrita e mais nada. De facto, a razão pela qual escrevi este post poderá ser revelada mais tarde, numa conversa privada. Mas a verdade é que fiquei muito desiludido com a atitude anti-social de alguns "metaleiros" aqui de Angra. Se calhar, deveria alterar o título para "metaleiros angrenses", não sei.
Tenho a consciência de que o que disseste é verdade, nem todos são assim. Mal seria se assim o fosse. Mais, tenho grande amigos meus que são metaleiros (como tu também já o foste), mas a crítica é efectivamente ao exagero. Sempre ao exagero. Esta crítica está na linha de conta de que, tal como o Bloco de Esquerda já o demonstrou, qualquer extremismo e exagero ideológico, seja qual for, provoca sempre um elitismo.
Isto é, se não fores como eu, não és bom, ou não és porreiro, ou não és "prá frente", etc.
Não sei em quem é que estavas a pensar quando disseste que o retraro era de alguém que conhecias. Mas não foi para alguém em especial. Foi uma generalização.
Mais a mais, este retrato é estereotipado... gosto de estereotipar na escrita, porque sei que na verdade as coisas não são preto e branco, mas muito mais acinzentadas....

aguardo

9:52 PM  
Blogger Miguel Linhares said...

Ok, a tua explicação é aceitável, mas julgo que não deverias estereotipar tanto o teu comentário. Levando a tua escrita ao exagero, apontas aquilo que realmente pretendias, mas, também tudo o que está à sua volta. Nem tudo é farinha do mesmo saco, nem todos os politícos são corruptos, nem todos os advogados são mentirosos, nem todos os metaleiros usam talas como os cavalos! Faz-me lembrar comentários tristes que o Luís Filipe Borges já proferiu, por variadas vezes, sobre os metaleiros e sobre a música rock/metal...e como desprezou, num programa sobre música, o seu convidado Fernando Ribeiro (vocalista dos Moonspell), dando mais interesse aos outros dois convidados (um DJ que não me lembro o nome e o Zé Pedro dos Xutos). Quando até se formos a ver bem, ele era o mais internacional de todos os presentes, tem uma banda que é dos poucos produtos Portugueses na area da música que se conhece no estrangeiro e é dos que já vendeu mais em todo o mundo. Mas como o homem "grita" na sua banda...foi meio posto de lado. Porquê? Porque o apresentador/entrevistador apesar de ter a sua graça e eu até acompanhar o seu trabalho, tem o grave defeito de estereotipar as coisas. è preciso ter cuidado com isso...
Abraço

7:58 PM  
Blogger PmCDP said...

Eu cá já preguei uma partida bem fodida a um amigo meu por causa de encaixar nessa tua definição . Mais: o rapaz avisou-me e aos restantes amigos qual era o dia em que ia pedir à mãe para começar a vestir de preto. e no dia marcado começou mesmo a vestir de preto.

7:15 PM  
Blogger Jéssica said...

Só para você ter uma idéia, cair na real, o quanto você não entende nada de metaleiros, vou te contar algumas coisas. Eu sou apenas uma garota de 13 anos de idade, que curte metal, uso apenas roupas pretas, mas não bebo sangue humano. Conheço vários metaleiros e nenhum deles bebe sangue humano (é claro que existem pessoas que curtem esse prato, mas nunca vi nenhum metaleiro, e tem mais, e se eu não fosse metaleira e gostasse de sangue, nem por isso eu iria ser metaleira), e o livro de São Cipriano, de onde você tirou essa idéia que metaleiros lêem isso? Eu acho que leitura depende de cada um, agora você vai me dizer que se eu ler um livrinho infantil eu serei uma criança? Ah, acorda cara! Ninguém se limita a uma coisa só, veja bem, eu gosto de coisas mórbidas(a maioria dos góticos curtem isso), eu admiro o som dos caras do Rammstein (Industrial), eu acho os emos pessoas bastante simpáticas, eu gosto muito de meias listradas. Se for para ficarem colocando rótulos em mim, então seria mais ou menos assim, gothic-industrias-limitada-emuxa. Isso não faz o mínimo sentido. E você só pode rotular alguém quando você sabe exatamente do assunto, coisa que pelo o que eu vi até agora você não entende nada.
Os metaleiros que eu conheço não são nenhum pouco entediados, eles sempre tem companhia e namoram, com certeza(e de não vi nenhuma rapariga). O que você diz sobre isso?
Metaleiros não são agressivos, nem as músicas, nem as letras, nem nada. O único motivo que faz as pessoas pensarem isso, é porque o som é pesado, as guitarras berram, e algumas pessoas não sabem distinguir o bom (metal) do lixo (funk, samba, pagode, pop, forró, sertanejo, country, black e outros tipos de som, que particularmente não me agradam). Agora vê se aprende, toma um rumo certo na sua vida ao invés de sair por aí publicando um bando de mentiras sem noção!

6:08 PM  
Blogger vtsrj said...

primeiro, 88% dos metaleiros sao homens, alguns ate caem na porrada com viados, ja 20 e poucos por cento e viado. Eu nao gosto de gay, eu nao sou gay. Entao cala essa sua boca seu filho da puta q vc nao sabe o q vc esta falando seu viadinho escroto. O q sao viados sao os emos, punk, q mete a porrada nos outros e por q eles querem ser comidos tb sao viadinhos, grung q nao toma banho tb e viado, funkeiro e um filho da puta q fica com akelas musiks escrotas, ja levando para o lado das mulheres rebolando e mt bom, pagodeiro e xeirador,sambista e funkeiro e traficante. e td a msm merda, mas vc nao escuta mt falar dos metaleiros, pois nos metaleiros somos brutos, gostamos de musiks demoniacas, entao cala a sua boca pra falar de nos. vlw.

11:57 PM  

Enviar um comentário

<< Home