c. (corte)
Esta noite fria. E de novo a incómoda e recorrente sensação de te sentir a meu lado, respirando tranquilamente o ar que me circunda, ocupando ostensivamente o espaço reservado à minha sombra, usufruindo sem vergonha alguma de um espaço reservado, cuidadoso e encomendado, para alguém que não tu.
ping… ping…)
Enjoada, a cabeça cansada, sinto-me de novo usada como as meias que costumas deixar à entrada do quarto-de-cama. Tento desesperadamente limpar a crosta da vergonha dos joelhos e o muco que se acumula em redor dos meus lábios de todas as vezes que me visitas. E aqui ouço o pingar cadenciado da água
ping… ping…)
na torneira da casa de banho onde não estás a limpar o teu corpo suado. Sinto-me de novo limpa, sozinha e desejada.
Para ti costuma ser fácil o uso corporal, o despejo da raiva acumulada em movimentos frenéticos e repetitivos, do desejo reprimido pelos fatos e pelas gravatas, envoltas em conversas políticas e correctamente insonsas, continuamente vazadas entre copos de uísque e braços cruzados, de olhares intriguistas e jogos de uso-abuso.
É tão fácil para ti o inócuo cumprimento
olá, como passou?)
e os sorrisos trocados entre corredores de hotéis e conferências intragáveis, pintados a traços de conveniência e secretismo enquanto se discutem os factos do universo ou as alterações climáticas da minha cama.
Mas o mais fácil de tudo, para ti, é o ansiado regresso a casa, o rodar da chave na porta,
tantas vezes rodada)
o entrar de novo no ambiente habitual do comodismo, dos acabamentos de luxo, do soalho flutuante e das paredes estanhadas, com quadros caros pendurados nas paredes sobre a mobília encerada e moderna, os tapetes persas, as canetas de pena, o escritório arrumado pela criada,
não eu)
os corredores decorados com móveis e pau-brasil, o quarto-de-cama luxuoso, a mulher deitada sobre o corpo, cansada e adormecida pela espera vã de que a reunião do escritório fosse
ao menos esta vez)
menos demorada, com menos complicações e movimentações político-partidárias, que os assuntos discutidos tivessem um fim à vista de todos, sem grandes refutações nem discussões, selados com apertos de mão e desejos de uma boa viagem de regresso a casa.
Para ti, o mais fácil é o sair.
Eu, não sei se fico. Levanto-me e percorro este corredor pintado a tinta de água, de bordos irregulares e escamados, pisando com os pés descalços o chão de cortiça barata que a tua presença teima em manter, e os móveis comprados no ikea, as juntas coladas com cola de madeira
como toda a cola que usas em mim)
à força de tanto as separar pela raiva de não as conseguir unir.
A cozinha está vazia de tudo, acendo a luz e reparo que tenho de te pedir um candeeiro para este cubículo. A luz seca da lâmpada fere-me os olhos cansados e adormecidos. Levo um copo com água da torneira à boca para aplacar a sede e a sensação que tenho de ter o teu muco nos cantos dos meus lábios.
Para mim é difícil o ficar. O ter que vaguear sozinha
e assustada)
por este apartamento minúsculo, tentando fazer sentido deste fio de ariadne que vou tecendo à medida que avanço, com custo, organizando o labirinto deste meu viver adaptado a uma mera necessidade de sobrevivência e, quiçá, comodismo meu pelo teu hábito de apareceres sempre tarde, sempre cansado, sempre contando com…
Torna-se tão difícil o ficar, o não partir em busca de uma casa com chão flutuante e paredes estanhadas, onde a água é engarrafada
francesa)
e sabe bem quando a bebemos a esta hora da noite, sozinhos e descalços no chão frio de azulejos baratos, comprados quando o dinheiro não dá para esticar.
Torna-se ainda mais difícil a efemeridade. O abraço breve e os preliminares contabilizados aos minutos dispendidos
tenho de ir…)
sem que se levantem suspeitas da ausência prolongada, algures em trabalho-reuniões-convívios-encontros-aborrecimentos de que ninguém quer saber quando são utilizados como desculpas.
E é nestes breves instantes, enquanto ouço o pingar cadenciado da água
ping… ping…)
na torneira da casa de banho, e me encontro sozinha, sentada na cama vazia, feliz por não estares a meu lado, que me apetece desfazer o novelo, perder o fio à meada, perder-me neste labirinto que é o meu constante fazer e refazer de uma existência enferma e efémera, perdida e desconexa de razão que a única razão de existir.
Esta noite fria. E por momentos a alegre sensação de não te sentir a meu lado, de saber que não respiras o meu ar, que não ocupas o lugar a meu lado.
Nunca mais.
ping… ping…)
Enjoada, a cabeça cansada, sinto-me de novo usada como as meias que costumas deixar à entrada do quarto-de-cama. Tento desesperadamente limpar a crosta da vergonha dos joelhos e o muco que se acumula em redor dos meus lábios de todas as vezes que me visitas. E aqui ouço o pingar cadenciado da água
ping… ping…)
na torneira da casa de banho onde não estás a limpar o teu corpo suado. Sinto-me de novo limpa, sozinha e desejada.
Para ti costuma ser fácil o uso corporal, o despejo da raiva acumulada em movimentos frenéticos e repetitivos, do desejo reprimido pelos fatos e pelas gravatas, envoltas em conversas políticas e correctamente insonsas, continuamente vazadas entre copos de uísque e braços cruzados, de olhares intriguistas e jogos de uso-abuso.
É tão fácil para ti o inócuo cumprimento
olá, como passou?)
e os sorrisos trocados entre corredores de hotéis e conferências intragáveis, pintados a traços de conveniência e secretismo enquanto se discutem os factos do universo ou as alterações climáticas da minha cama.
Mas o mais fácil de tudo, para ti, é o ansiado regresso a casa, o rodar da chave na porta,
tantas vezes rodada)
o entrar de novo no ambiente habitual do comodismo, dos acabamentos de luxo, do soalho flutuante e das paredes estanhadas, com quadros caros pendurados nas paredes sobre a mobília encerada e moderna, os tapetes persas, as canetas de pena, o escritório arrumado pela criada,
não eu)
os corredores decorados com móveis e pau-brasil, o quarto-de-cama luxuoso, a mulher deitada sobre o corpo, cansada e adormecida pela espera vã de que a reunião do escritório fosse
ao menos esta vez)
menos demorada, com menos complicações e movimentações político-partidárias, que os assuntos discutidos tivessem um fim à vista de todos, sem grandes refutações nem discussões, selados com apertos de mão e desejos de uma boa viagem de regresso a casa.
Para ti, o mais fácil é o sair.
Eu, não sei se fico. Levanto-me e percorro este corredor pintado a tinta de água, de bordos irregulares e escamados, pisando com os pés descalços o chão de cortiça barata que a tua presença teima em manter, e os móveis comprados no ikea, as juntas coladas com cola de madeira
como toda a cola que usas em mim)
à força de tanto as separar pela raiva de não as conseguir unir.
A cozinha está vazia de tudo, acendo a luz e reparo que tenho de te pedir um candeeiro para este cubículo. A luz seca da lâmpada fere-me os olhos cansados e adormecidos. Levo um copo com água da torneira à boca para aplacar a sede e a sensação que tenho de ter o teu muco nos cantos dos meus lábios.
Para mim é difícil o ficar. O ter que vaguear sozinha
e assustada)
por este apartamento minúsculo, tentando fazer sentido deste fio de ariadne que vou tecendo à medida que avanço, com custo, organizando o labirinto deste meu viver adaptado a uma mera necessidade de sobrevivência e, quiçá, comodismo meu pelo teu hábito de apareceres sempre tarde, sempre cansado, sempre contando com…
Torna-se tão difícil o ficar, o não partir em busca de uma casa com chão flutuante e paredes estanhadas, onde a água é engarrafada
francesa)
e sabe bem quando a bebemos a esta hora da noite, sozinhos e descalços no chão frio de azulejos baratos, comprados quando o dinheiro não dá para esticar.
Torna-se ainda mais difícil a efemeridade. O abraço breve e os preliminares contabilizados aos minutos dispendidos
tenho de ir…)
sem que se levantem suspeitas da ausência prolongada, algures em trabalho-reuniões-convívios-encontros-aborrecimentos de que ninguém quer saber quando são utilizados como desculpas.
E é nestes breves instantes, enquanto ouço o pingar cadenciado da água
ping… ping…)
na torneira da casa de banho, e me encontro sozinha, sentada na cama vazia, feliz por não estares a meu lado, que me apetece desfazer o novelo, perder o fio à meada, perder-me neste labirinto que é o meu constante fazer e refazer de uma existência enferma e efémera, perdida e desconexa de razão que a única razão de existir.
Esta noite fria. E por momentos a alegre sensação de não te sentir a meu lado, de saber que não respiras o meu ar, que não ocupas o lugar a meu lado.
Nunca mais.

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